segunda-feira, 15 de junho de 2009

Serie Entre-Vistas com Rogério Saraiva

Born To Lose – Iniciemos nosso ritual: O que você entende por arte, qual sua concepção particular do que seja arte?

Rogério Saraiva – Arte pra mim, quando era pequeno, era tudo aquilo que eu não podia fazer e fazia. Essa concepção não mudou muito pra mim, de ontem até hoje, apenas tento acrescentar mais ousadia. Ou seja, a arte é uma verdade ousada.

Born To Lose – Ao visitar o seu blog o leitornauta encontra em seu perfil a seguinte definição: “têm 21 anos. poeta. e segundo seu pai, vagabundo”. A partir desta definição faço duas perguntas; a primeira: Porque e para que ser poeta Rogério? Você acha que a definição de seu pai é adequada ao perfil do poeta?

Rogério Saraiva – Ser poeta para ser livre. Acredito que é o que todo artista busca em sua arte. Haha! Boa pergunta. Já faz algum tempo que escrevi essa frase. Na época tinha desistido da faculdade a qual fazia e ele me disse isso, achando que eu queria sobreviver só de escritos, cinema, teatro. Respondendo sua pergunta, em sentido geral, discordo que a definição de vagabundo a poeta não seja adequada. Porém existem casos e casos. Tem gente que usa da poesia pra não fazer, falando que está fazendo arte, algo pra eternidade e na hora que você lê, é uma verdadeira bosta. Ou seja, ta perdendo um tempo precioso a qual deveria está fazendo algo que realmente saiba

Born To Lose – Percebo uma ligação entre sua poesia e à de figuras como Paulo Leminski, Régis Bonvicino, a rapaziada da poesia concreta, daí já podemos ligar ao Oswald de Andrade, o grande mentor, sem ter sido, de todo esse desenvolvimento poético ligado às mudanças sociais e tecnológicas, os quais queriam expressar através da poesia a simultaneidade e caos da vida moderna. Para tanto se serviram de linguagens próprias ao século XX, como a publicidade e o áudio-visual, aliados à poética milenar dos hai-kais. Havendo está ligação entre sua poesia e a dessa vertente poética brasileira, você consideraria haver inovações no modo como faz seus poemas, ou considera utilizar de uma linguagem poética em particular para expressar, de modo bastante próprio evidentemente, suas emoções, angústias, etcetera e tal?

Rogério Saraiva - Pergunta difícil. Realmente, esses três escritores que você citou me influenciaram bastante. Em muitas vezes escrevo coisas que você pode dizer "esse cara gosta e lê Leminski", mas não curto muito de me definir em algum movimento literário, gosto de surfar desde os versos de Neruda à ironia de Marcelino Freire, sem a preocupação de estar traindo algum movimento e ser ameaçado de morte (kkk). Acredito sim que minha poesia representa algo de novo, apesar de sempre estarmos repetindo coisas já ditas.



Born To Lose – Esse rótulo acaba sendo inevitável, na medida em que se “poeta” usando as formas de versificação instauradas por poetas de outra geração como o Leminski. O novo poeta acaba sendo assombrado pelo fantasma de seus antecessores. Desse modo, me parece ficar difícil uma apreciação do poema que seja desvinculada do nome de seu criador, ao menos eu tenho esse tipo de dificuldade. Desse modo leio um poema seu, Rogério Saraiva, e não consigo deixar de pensar nos poemas do Leminski. Fica impossível deixar de notar em seus versos uma forte influência daquela forma de versificação criada pelos poetas citados na pergunta anterior, como você mesmo disse. Contudo, você tem razão ao dizer que algo de novo pode aparecer em velhas formas, quanto a isso não há duvidas, Pablo Neruda não foi ultrapassado em termos de poesia porque a poesia concreta surgiu como vanguarda poética na metade do século XX. Sendo assim, o que há de novo nessa “repetição”? O que falta a nós meros leitores de poesia para captar o novo e evitar ligar o novo trabalho de poetas jovens como você, com seus antecessores e inspiradores? O que não conseguimos captar e que só é sensível ao coração do poeta?

Rogério Saraiva – A repetição é o instrumento para o novo. Assim como as pesquisas cientificas, o treino do atleta, o poeta se supera na repetição. Não ligo quando falam que meus escritos se parecem com os que me inspiraram, mas falta no leitor perceber e discernir a contextualidade ou até mesmo ironia do autor quando este se propõe às críticas. No mais, o coração do poeta, deixa de ser dele quando sua poesia se torna universal, ou seja, quando é lido.

I

o ser humano
e
seus poréns

porém não dá
pra
acreditar

nesses seus meus
nossos
améns
Rogerio Saraiva

Born To Lose – Você acha então que apenas o leitor “erudito”, “esclarecido”, tem condições de perceber a força de seus versos?

Rogério Saraiva - De forma alguma. Se minhas palavras transpareceram isso, foi um erro de minha parte. Porém, nós vivemos num país onde a leitura não é um hábito, os livros são caros e aqueles que tem a oportunidade de entrar num curso superior, querem apenas ganhar o diploma e muitas vezes não compreendem que os livros são a maior fonte de conhecimento e de liberdade do ser humano. Quero dizer que minha poesia é uma escrita simples, que qualquer um possa gostar ou não, mas que nem todos possam julgar.

Born To Lose – Você teve a oportunidade de visitar Cuba no início do ano, passar um mês inteiro por lá, conhecer a rotina das pessoas comuns daquele país, presenciar manifestações culturais, inclusive há aquele vídeo em que você gravou os percussionistas tocando em uma rua de ... Havana não foi? O que isso acrescentou em sua concepção de política e principalmente como isso ágil sobre sua percepção estética do mundo? Ou seja, isso o inspirou a criar novos versos, motivou escrever novas coisas? Enfim fale-nos sobre o impacto da visita a Cuba sobre você, do ponto de vista político e estético.

Rogério Saraiva - Que bom que perguntou sobre Cuba, fico muito feliz em falar deste país. O vídeo se passa primeiramente na ladeira de El Morro e depois no Boulevard, ambos na cidade de Santiago de Cuba. Conhecer Cuba foi perceber naquela sociedade o patriotismo, a felicidade do povo que mais se assemelha ao Brasil. Percorri Cuba de Norte a Sul, passei em quatro cidades, Havana, Varadero, Santa Clara e Santiago de Cuba. Visitei museus, lugares históricos, conversei bastante, conheci muita gente de todo o mundo e fiz amizades sinceras, a qual matenho contato constante. Mas não fui em Cuba só pra fazer turismo, fiz três cursos, pedagogia, análises políticas educativas na américa latina e formação político ideológica.
Cuba tem seus problemas também, como toda nação. A burocracia do Estado pra alguns assuntos, os furacões, a corrupção que rola na parte do turismo, a base de Guantánamo, o bloqueio genocida promovido por parte dos Estado Unidos e o pouco avanço em tecnologia de consumo, coisa que já está mudando. O mais importante que isso é debatido constantemente nos meios de comunicação de lá.
Cheguei a conclusão que nossos meios de comunicação são fáticos e enfadonhos. Promotores de uma política intervencionista e genocida sobre a ilha. Gosto de comparar esse tipo de jornalismo com o cristianismo. Fala-se que Cristo viveu, fez milagres e etc, mas a única coisa que comprova isso é a bíblia, um documento editado e compilado 300 anos depois de sua possível existência. Acontece o mesmo em Cuba, muita gente fala merda sem ter nenhuma base concreta e tira pra si, conceitos jogados a esmo pela grande mídia ou por publicações como a Revista Veja sobre o argentino revolucionário Ernesto Che Guevara, sem nenhuma base histórica ou algum autor de conhecimento no tema.
Em Cuba tive um contato mais forte com um grande pensador, José Marti, a qual fiz um escrito inspirado em suas frases para os amigos cubanos. Segue:

" Talvez poucas pessoas entendam que sinceridade é uma ideologia e não educação ou moralidade. Sou sincero porque leio Neruda, rio em Leminski e me fortaleço em José Martí. Sou sincero porque tenho ideais e não hesitaria em morrer por eles. Sou sincero porque o amor e a convicção do que sou é maior que qualquer opressão desse mundo. Lutar, amar e morrer, eis o significado de minha vida."

Escrevi lá, palavras fortes, de luta e de amor. Comprei livros do Boaventura de Souza Santos, Leminski, Goethe, Dante Alighieri, Ferreira Gullar, José Marti, Juan Bosch, revistas de teatro, de cultura, a preços de centavos. Livros que aqui custariam um salário.

Voltei de Cuba a mesma pessoa, carne, sangue e convicção, porém mais dedicado, revolucionário. Esteticamente falando, ganhei novas perspectivas do ponto de vista da escrita, pois acredito que nosso incosciente se modifica num lugar diferente, estranho ao nosso ninho.

O poeta registrou um dos seus momento em Cuba,quando teve a oportunidade de ver e ouvir percussionistas de Santiago de Cuba levando um som na rua. Confira este momento através do link http://www.youtube.com/watch?v=nPNKNn-zT1I&feature=related

Born To Lose: Pode ser impressão minha Rogério, mas suas palavras parecem estar com um tom de otimismo, não um sentido banal, vale a pena frisar, mas aquele otimismo dos que acreditam na possibilidade de mudanças, de que a situação presente pode ser mudada e produzir uma situação futura melhor. Essa impressão é correta? Você usou o termo revolucionário para descrever a mudança provocada pela viagem à Cuba, qual é a sua luta, qual revolução você pretende realizar?

Rogério Saraiva: Senti em minha juventude dois extremos. De um lado uma família pobre, mas cheia de alegria e uma família rica na obsessão por dinheiro. Tomei conta do que é o Socialismo ao conhecer a vida de Neruda, um dos primeiro poetas a qual me apaixonei. Não foi nenhum discurso inflamado do Lula ou da Heloísa Helena que atenuou o revolucionário que existe em mim. Foi a própria poesia, a própria arte. Não sou do tipo de poeta que nega a vida, ao contrário, afirmo-a e me sinto tocado e emocionado a cada pedinte na rua, os problemas sociais em que vemos em nossa sociedade, a degradação do meio ambiente e etc. Então lhe afirmo que essa impressão não é incorreta. Você pode me perguntar se o que "vale para mim é uma arte engajada?", lhe direito que não, tanto que não adoto esse tipo de escrita em todos escritos, mas também não deixo de admirá-la.

Parece glichê, mas minha luta é a luta de 40 milhões de brasileiros que estão na miséria. Africanos que estão esquecidos pelo mundo, passando pelas mais absurdas necessidades humanas. Minha revolução não é inventar um novo tipo de poesia, uma escrita ultra revolucionária que irá mudar toda sociedade atual. Minha revolução é escrever e é assim uma das formas que ajudo nossos irmãos Sapiens.

Born To Lose: Como escrever pode ajudar “nossos irmãos” famintos e miseráveis? Desculpe a provocação meu amigo, mas eu perdi há muito tempo qualquer esperança de melhora da condição da existência humana, quem sabe uma resposta à esta pergunta que lhe faço devolva algum sentido para encontrar novamente a “esperança”.

Rogério Saraiva: Não sei. Talvez eu escreva pra me ajudar e ache erroneamente que esteja tocando de alguma forma em alguém por este mundo que nos entristece. Porém, da mesma forma que sei que um dia irei morrer, não sabendo quando e onde, sinto que as palavras expressadas na arte, esse sentimento incógnito que sempre o artista tenta buscar, pegar e mostrar, nunca deixará morrer a "esperança" que alimenta um mundo melhor. Tive a oportunidade de ser elogiado em Moçambique, tanto no meu blog, quanto no curta metragem que fiz com meu amigo Tozinho, isso me motiva a escrever, e se a motivação não é esperança, morrerei enganado.

Born To Lose: Bom Rogério, sei que você tem alguns trabalhos em teatro, se não me engano você disse ter escrito uma ou duas peças e as apresentados em Ponte Nova. Gostaria que falasse um pouco sobre seu trabalho com o teatro.

Rogério Saraiva: Sim e não. Fiz três ótimos anos de teatro com o Diretor karran em Ponte Nova. O teatro foi um divisor de águas em minha vida, assim como a poesia e os romances. Aprendi muito e sinto falta, por isso que estou pensando em voltar a prática de teatro profissionalizante aqui em Belo Horizonte. Fiz diversas peças com o Diretor karran, porém as que escrevi, peças pequenas, não tive o prazer de colocá-las em prática. Muitas vezes o Karran pedia tais peças, queria fazer algo "pontenova", como conseguimos algumas vezes, porém em relação as minhas peças escritas, estava muito inseguro pra colocá-las em prática.

Depois da largar o teatro, tentei implementar um projeto com o músico Wesley Costa Mello, que envolvia teatro, declamação de poesia e música. Infelizmente este projeto que no meu ponto de vista era e é muito audaz, não foi pra frente, pois tive que mudar de Ponte Nova para Belo Horizonte. Mas espero muito em breve fazê-lo acontecer.

II

palavras certas
jogas de leminski
jogo do amor
3x0 pra solidão
Rogério Saraiva

Born To Lose: Aproveitando que falou a respeito de um projeto seu com Wesley, vou lhe fazer uma pergunta que desde o início do ano venho me colocando freqüentemente e que pretendo fazer a todos os artistas pontenovenses que forem entrevistados para o blog. Você acha que existe uma cena artística em Ponte Nova? Veja bem, como havia lhe dito em outra oportunidade, a minha última viagem à Ponte Nova teve um valor de descoberta, pois consegui ver que meus amigos, muitos deles de infância, estavam produzindo excelentes trabalhos nos mais variados campos da arte, poesia, música, artes plásticas, artes visuais, etc. O que é mais importante, trabalhos autorais, que buscam uma identidade própria. Contudo há problemas e graves! Reclama-se muito de não haver cultura em Ponte Nova, de não haver apoio a eventos culturais, mas sempre direcionando a culpa aos órgãos públicos, contudo a culpa além de atingir este alvo deve alcançar outro, os próprios artistas que não buscam meios de agitar culturalmente a cidade. Sinceramente vejo a possibilidade de se constituir uma cena cultural na cidade, porém seria preciso haver uma união entre estes artistas, que sinceramente não entendo porque não há, uma vez que todos são amigos. Há uma estreita relação entre todos, mas que fica no campo da amizade sem atingir o âmbito profissional. Isso pra mim é bastante estranho! A possibilidade de diálogo entre o trabalho feito por cada um é enorme, o projeto entre você e Wesley deixa isso bem claro ao realizar um diálogo entre música e poesia mais a expressão teatral. Deixa eu mudar minha pergunta, o que você acha disso Rogério, gostaria de ouvir sua opinião porque realmente esta é uma questão que não para de ser respondida por mim a mim mesmo, mas que não cessa de retornar constantemente. Ouvir você que é pontenovense, meu amigo e poeta acerca desta questão é importante, não só para ajudar a enfrentar esta questão, que desejo que saia do limite do pessoal e alcance o valor de debate público, mas para conhecer a visão do artista sobre sua terra.

Rogério Saraiva: Cresci vendo atividade artística em Ponte Nova e isso me motivou a ter uma consciência sobre arte hoje. Porém, não vejo uma unidade efetiva. Digo unidade efetiva porquê muitos já se uniram pra fazer algo, seja envolvido a música, teatro, plásticas ou até mesmo um cadastro dos artistas perante a secretária de cultura da cidade, mas devido aos paradigmas sociais e políticos de nossa Ponte Nova, muitos desistem e saem da cidade para tentar algo fora, pois as possibilidades são maiores. Também falta maturidade, numa opinião pessoal.

Born To Lose: Bom Rogério, quero agradecer pela entrevista e fazer uma última pergunta: há alguma pergunta que não foi feita, mas que você gostaria de ter respondido? Se houver, faça a pergunta e nos responda.

Rogério Saraiva: Eu que agradeço e peço desculpas por qualquer coisa. Por mim está ótimo. Grande abraço e aquele jargão: Parabéns pela iniciativa.

domingo, 24 de maio de 2009

Portas e Chaves



Que doideira bicho!!! Vocês não vão acreditar!! Outro dia um cara abriu uma de suas portas na minha frente, e foi uma coisa louca o que vi lá dentro: olhos chorando lágrimas de sangue, uma boca que desespera em gritos, mãos feitas de dor e que destroem paredes de tijolos como se fossem de papel.
Cara!! Foi assustador ver o que aquela porta escondia, ou pelo menos aquilo que defendia seu conteúdo; ou ainda defende, sei lá. Doideira maior foi perceber que estava ao mesmo tempo encantado pelo momento; seduzido pelo medo, mortificado pela beleza oferecida pela visão do assustador!!
É muito foda descrever uma sensação sem fugir de uma atitude introspectiva, mas...... ali percebi que nascemos pra sentir a dor da vida e não a dor da jaula. Pô, é o seguinte, essa faca corta de 2 lados!! O mundo todo pode ser uma jaula, causar acessos de caustofobia no camarada. E o pior é que tem uns malucos aí que tão acorrentados até os dentes e você olha pros caras e eles parecem com o vôo de uma borboleta no colorido imenso de um vale em plena primavera. Dá ou não dá pra pirá?
Só posso pensar que cada um constrói sua própria jaula, ou sua própria liberdade. Todos nós temos portas fechadas, pois somos covardes, um pouco imbecis também, por acharmos que devemos esconder algo. Que bosta cara!! Tem porta trancada a 7 chaves!! Se for pra fingir melhor rir do q chorar né? É muito bom quando uma força, seja o desespero ou a embriaguez, levanta nosso braço e abre mais uma dessas portas de merda!! Outra gota de suor na construção da liberdade!!
Sei que as portas só abrem com chaves. Já vi alguns caras, até mesmo eu, abrirem algumas portas com lágrimas, outras com gritos, outras com abraços. A porta mais difícil que abri, ainda me lembro como se fosse ontem, foi a coisa mais linda que meus olhos já viram!! A chave? A piração maior é que não precisei de chave alguma, a porta já estava aberta, só precisei empurrar. Entretanto, durou apenas um segundo a visão do que estava lá dentro. A única porta que não precisei abrir foi também a única que se fechou depois de aberta. A violência com que foi fechada me faz pensar se vou abri-la novamente. Durante algum tempo esse pensamento foi a minha jaula. Consegui destruí-la, agora esse pensamento é ora meu sorriso, ora minha música, ora minha paisagem. Jaula transformada em liberdade!!
Ainda sinto nos meus ombros todo o peso de todas as portas que ainda não abri e sei que aquele cara também tá nessa comigo.

Precisamos de + liberdade
“ abrir + portas
“ fazer + chaves

sábado, 9 de maio de 2009

Entrevista Luis Henrique Tozo

Luis Henrique Tozo, o Tozin, aceitou gentilmente nosso convite para uma entrevista, portanto o mês de maio é dedicado a este artista aqui no Born To Lose. Tozin nasceu na cidade mineira de Ponte Nova e hoje faz o curso de Artes Visuais na UEMG em Belo Horizonte. Luis Henrique concentra seus trabalhos na fotografia, campo que o introduziu nas artes, fazendo suas fotos por meio da camera de seu aparelho celular. Hoje o artista dialoga com novos recursos através da computaçao gráfica. O artista se interessa pelo campo do cinema, tendo feito com o amigo e poeta Rogério Saraiva um Curta Metragem, Antônio Nu Escuro. O curta teve visibilidade e recebeu elogios do site JA filmes, onde o vídeo é divulgado e pode ser assistido. O link do JA filmes é http://www.jafilmes.com/site_2008/secoes/curtas_do_brasil/curtas/antonio_claro_escuro/antonio_nu_claro_escuro.htm. Para conhecer mais do trabalho de Luis Henrique Tozo acessem o blog Realidades Possíveis o endereço é http://tozinfotos.blogspot.com/.

Confiram a entrevista na íntegra logo abaixo:




Born To Lose - A Primeira pergunta é um aquecimento, uma quebra de clima e uma maneira de confrontar diferentes perspectivas do que seja Arte. Desse modo Tozin, diga-nos: o que é arte para você?

Tozim: Arte é uma forma de expressar idéias através de símbolos ... tornar palpável o inteligível.


Born To Lose – Você tem alguns trabalhos com fotografia feitos de um modo bastante peculiar, usando o celular como ferramenta. Como é o seu método de trabalho com fotografia em celular? Porque escolheu esse tipo de linguagem para expressar suas idéias?

Tozim: Na verdade, escolhi o celular por falta de opção, nos trabalhos recentes comecei a usar maquina digital mesmo...mas foi através do celular que surgiu o interesse por fotografia, que acabou funcionando mais como um laboratório de imagens, por enquanto, não pretendo usar esta ferramenta....quanto ao método, eu deixava a casa escura e utilizava a tv como fonte de luz.

Born To Lose – Confesso entender pouco sobre fotografia, contudo alguns amigos que trabalham nessa área criticam muito o uso da câmera digital, pois esta não consegue captar determinados detalhes. Acho que as limitações apontadas na câmera digital vão muito além disso, do ponto de vista de alguns fotógrafos, mas foi até onde consegui chegar. Como você vê tais críticas, elas tem fundamento, há uma diferença muito grande entre fotografar com uma máquina digital e uma tradicional? Ou você está usando a digital da mesma forma como usou o celular, porque não tem em mãos a ferramenta com que gostaria de trabalhar?




Tozim: Não concordo com as críticas, o que importa é a sensibilidade do fotógrafo! A máquina digital é simplesmente um recurso adicional, ela também exige sensibilidade e criatividade de quem a utiliza. A diferença é que na digital você tem um controle maior ao editar, é inegável que a tecnologia atual tenha ampliado os recursos de trabalho. Hoje, prefiro continuar usando a digital da mesma forma como trabalhei com o celular.

Born To Lose – Você começou um curso superior em Artes Visuais, o que é um curso de artes visuais? Ao que me parece é algo que vai além da fotografia e que permite o diálogo com novas tecnologias como a computação gráfica, por exemplo. É isso mesmo?

Tozim – No curso de Artes Visuais, ensina-se a importância da observação. O primeiro passo consiste em você educar o olhar para aprender a ver o mundo com olhos de desenhista. No meu caso, faço licenciatura e posso trabalhar como educador ou na área de pesquisa, porém confesso que o curso deixa a desejar um pouco em termos de interação com tecnologia, pois o objetivo é formar professores e não artistas...assim eu ouvi de um professor, achei absurdo. O educador deveria te possibilitar a escolher um caminho.

Born To Lose – Concordo, realmente é um absurdo ouvir isso dentro de uma universidade. Como você vê isso Tozin, digo, esta separação feita entre professor e artista feita na academia não lhe soa estranha? O que você esperava da universidade, enquanto artista, que via na universidade um local para expandir seu conhecimento sobre as técnicas de fotografia, por exemplo, e acaba encontrando alguém que lhe diz que receberá uma formação a qual lhe dará condições apenas de ser um professor?

Tozin – Para ser sincero não entendo porque existe esta separação na academia, estou estudando para aprofundar o meu conhecimento no campo da arte. Até que a universidade apresenta oportunidades como alguns concursos fotográficos e exibição de curtas, mas há certos comentários que você precisa ignorar e continuar fazendo a sua parte, senão você acaba se sentindo na obrigação de seguir um caminho proposto pela academia. Talvez eu esteja no lugar errado, mas vejo esta situação como mais um degrau a ser escalado. Para finalizar, acho que um curso ajuda na formação artística, com certeza, mas ele um meio é não um fim.

Born To Lose – Bom você falar em curtas. Você e Rogério Saraiva fizeram um curta metragem cujo título é 'Antônio Nú Claro Escuro'. Qual é o seu interesse pelo cinema em termos de expressão artística? Você tem interesse em vincular cinema e fotografia, como você compreende a relação entre essas duas esferas artísticas?

Tozin - Eu quero simplesmente mostrar que cinema vai muito mais além de querer contar uma historia, quero um dia trabalhar com animação ajudando na direção de arte ou na concepção de cenário.Quanto a fotografia e cinema acho que uma complementa a outra e não vejo nenhuma distinção entre essas áreas artística,pois ambas lidam com a arte da imagem.

Born To Lose – Você continua tirando suas fotografias? O que tem produzido atualmente?

Tozin - Sim, recentemente fiz uma foto para a banda Sonary, o baterista Fefeu queria uma imagem que traduzisse a idéia de mudança. Fiz a arte com uma pessoa pintando uma casa velha e posteriormente um amigo que faz designer deu o tratamento final. Também tenho um trabalho de capa para banda Persona de Ponte Nova, neste momento estou interessado em fazer uma exposição de fotografia.

Born To Lose – Qual pergunta eu não fiz à você e que gostaria de ter respondido?

Tozin - Acho que foi o suficiente, por mim esta tudo bem...agradeço!

Alguns dos trabalhos de Luis Henrique, mais do trabalho do artista no blog Realidades Possíveis



quarta-feira, 6 de maio de 2009

Arte Subterranea em Ponte Nova.



Quando estive em Ponte Nova em dezembro passado, 2008, algo de inusitado aconteceu comigo, pode parecer viagem, mas tive uma espécie de revelação. Podem rir, mas é como denomino o insight que tive naquela ocasião. O que me foi revelado? A existência de uma produção cultural que ocorria na penumbra, esgueirando-se pelas esquinas, que se fazia presente em conversas de uns poucos amigos. Os pontenovenses, desde quando eu era um pirralho, reclamam de não haver cultura em sua terra. Hoje sei que o pontenovense mediano, 95% da população, pra ser otimista, tem uma visão bastante padronizada do que seja arte. Àquilo que tais filisteus chamam de arte não é nada mais que entretenimento disfarçado de arte. Se acontecerem cinqüenta shows na cidade com bandas de axé, pagode, pop, esta merda toda, colocar um cinema projetando filmes da Xuxa, aquelas produções infames da Globo, que mais parecem novelas de duas horas, umas peças teatrais fazendo adaptações de textos do Miguel Falabela, então basta fazer uma pesquisa junto à população no final deste ano hipotético e garanto que boa parte dos pesquisados dirão que foi um ano em que se investiu muito em cultura, que agora sim Ponte Nova possui uma cena cultural e outras sandices mais.
Os pontenovenses não sabem o que é arte e ponto final! Existem grandes artistas na cidade, novas gerações estão surgindo e é isto que percebi. O fato de estar há dez anos morando em Salvador, visitando minha cidade apenas uma vez por ano, ativou em mim esta sensibilidade, que embora tenha levado dez anos para se fazer clara, ainda sim ocorreu. Deixa eu afirmar com mais convicção: OS PONTENOVENSES NÃO SABEM O QUE É ARTE!!!!!!!!!!! Essa afirmação é derivada de uma constatação empírica, porque amigos de infância, amigos íntimos, estão fazendo arte em Ponte Nova, arte no sentido mais forte da palavra! Versos carregados do novo; imagens que vão buscar para além da realidade comum a existência de novas realidades, imperceptíveis pelo poder natural de nossos sentidos; pinturas que dialogam com as vanguardas e refletem uma nova perspectiva; sonoridade agressiva, erudita, popular; há arte em Ponte Nova, feita com muita criatividade, com muita dedicação, com muita paixão, arte feita pela arte, despreocupada em agradar terceiros, livre de exigências hediondas de empresários, arte inocente e cativante, apenas ARTE!
Outra constatação que fiz, até irônica, foi de que embora todos os envolvidos nesta “onda” artística em Ponte Nova sejam amigos, não há uma unidade, mas não unidade do ponto de vista estético, como se todos devessem partilhar de um mesmo paradigma artístico, mas não há unidade no sentido concreto do termo. Não existe um esforço destes artistas em fazer algo que entrelace todos os fazeres artísticos, que una num mesmo acontecimento poesia, artes plásticas, artes visuais, música, escultura, etcetera e tal. Estas pessoas não servem de interlocutores uns dos outros.
Nosso blog pretende gerar este diálogo, mesmo que no âmbito virtual. Nosso projeto Entre-Vistas, tem como objetivo trazer a opinião destes artistas sobre o que é arte, confrontar as perspectivas, notar os pontos de convergências de suas obras, dar uma face à esta ebulição artística de Ponte Nova. A velha máxima revolucionária, pode já estar gasta, mas serve bem pra definir o que precisa ser feito, “unidos somos fortes separados somos fracos”, não sei se a frase é esta, mas o sentido é este. Acho que seria mais proveitoso se houvesse interação, se as artes visuais se fundisse a música e produzisse algo, se a música se unisse ao teatro e gerasse algo, se o teatro se unisse à pintura e outra coisa daí surgisse, que tudo se misturasse para que nossa curiosidade fosse satisfeita e quem sabe nossa sede por novas criações.
Por isso tive a idéia, estou meio que retomando meu lado romântico, utópico, há muito adormecido, de fazer uma comunidade no Orkut que permitisse divulgar os artistas pontenovenses que fazem esta arte aqui descrita, que discuta a possibilidade de unidade deste fazer artístico, da possibilidade de um diálogo, da possibilidade de criar novas perspectivas, de ... de ... de ... quem sabe provocar a sensibilidade de novos artistas, de propiciar as condições para que nasçam novos apreciadores da arte, e talvez fazer o mais difícil, mostrar aos pontenovenses que há arte em Ponte Nova, o que não há pessoas com sensibilidade o suficiente para reconhecer o que é arte. O convite está feito, o link da comunidade no Orkut é: http://www.orkut.com.br/Main#Community.aspx?cmm=88042404, o nome da comunidade é Arte Subterrânea em Ponte Nova.

Segue abaixo a descrição da comunidade:

Meus caros, digo a vocês que Ponte Nova possui uma força cultural, cujos fluxos são subterrâneos. Esta movimentação marginal de forças artísticas preserva sua identidade por não se interessar em atender as exigências de um público médio, que infelizmente é refletido pela mentalidade provinciana do pontenovense. Aqui nos propomos a convidá-los a adentrar este ambiente subterrâneo ao invés de trazer à tona estas forças. Não por achar que devam ser preservadas do mundo mediano, da influência do mercado, nada disso, simplesmente consideramos ser mais interessante conduzir as poucas mentes que ainda tem sede por novas expressões da paixão humana através da arte até este universo subterrâneo.
Consideramos forças responsáveis por este fluxo subterraneo da arte pontenovense artistas como Davi Primavera, Joe, Jquesson Alberto, Luiz Henrique Tozo (Tozin), Antonio Inácio, Rogério Saraiva, Paula Inácio, Wesley Costa Melo, Zé Carlos Daniel ... Provavelmente existem outros nomes e este é um dos objetivos desta comunidade, encontrar novas forças.
O nome Arte Subterrânea foi o modo que encontrei de identificar a produção artística de Ponte Nova, embora não haja um movimento artístico que divida objetivos estéticos em comum nesta cidade. Esta arte é subterrânea, não por ser feita escondida, mas por não ser notada pela cidade, pelos pontenovenses. Ela ocorre na superfície, seu caráter subterrâneo deve-se à indiferença de todas as esferas sociais e políticas da cidade. Assim, não há o que trazer à tona, não há o que mudar, há sim que fazer algo, fortalecer o fazer artístico, fortalecer a arte que está sendo feita, fazer o possível para que estes artistas continuem produzindo, pesquisando, sentindo-se motivados à criar. Também não há porque esta arte deixar de ser subterrânea, porque isso significaria prostituí-la, perdesse sua identidade, porque não dizer sua essência, pois para se tornar visíveis aos olhos destes pontenovenses, deveria deixar de ser arte e tornar-se espetáculo, tornar-se produto, entretenimento e isso meus amigos não pode acontecer.
Esta feito o convite, mão à obra.




sexta-feira, 1 de maio de 2009

Dica de Leitura 1.

Leiam este livro:



Os 120 dias de Sodoma é sem dúvida a obra mais importante de Donatien Alphonse-François, o marquês de Sade. Bom talvez eu tenha exagerado, talvez não seja a mais importante,mas está entre as mais immportante. A coloco em primeiro lugar por ser um dos meus livros favoritos.
Nesta obra Sade faz duras críticas à igreja, à nobreza do século XIII, bem como aos filósofos de linhagem metafísica. Tais críticas tornam evidente a hipocrisia presente na moral pregada pelos membros da Igreja, os quais fazem dos princípios religiosos o véu onde escondem todas as suas depravações. Sade radicaliza, defendendo que todo ser humano tem seu preço, bastando estar precisando deste para resolver seus problemas pessoais, ou por adorar os luxos e excessos que pode proporcionar. Outro ponto marcante, característica predominante do século XVIII, é o uso da razao de forma metódica por parte do personagem principal, o libertino mais voraz do bando, o Duque de Blangis.
O Século das Luzes e a crença nos poderes da razão!! Blangis faz uso magnifíco de tais poderes, colocando metodicamente em prática os planos elaborados para os quatro meses de orgia, assassinato e tortura na busca obssessiva pelo prazer, pelas mais fortes torrentes de gozo.

Leiam e se arrepiem com as aventuras do Duque de Blangis e seus comparsas! Vejam até onde pode ir o homem quando tem coragem o bastante para satisfazer seus mais íntimos desejos. Aquilo que há de mais subterraneo em nossos desejos são satisfeitos pelos libertinos de Sade neste livro, por isso, se algum de vocês sentir alguma afinidade com algum destes libertinos, nao se preocupe, pois assim como nós, fazem parte do genêro humano.


Aproveitando a deixa, recomendamos o filme Saló os 120 de Sodoma de Pier Paolo Pasoli, baseado no livro do Marquês. Os libertinos do filme não são os nobres do século XVIII, mas fascistas do século XX, que uma vez tendo sido derrotados na Segunda Guerra Mundial, raptam adolescentes para satisfazerem suas fantasias sexuais em um palacete escondido no interior da Itália. O filme pode ser baixado pelo e mule sem problemas e a legenda vocês a encontram no site .

Alguns posteres e cenas do filme de Pasolini:







sábado, 25 de abril de 2009

Luis Henrique Tozo e as realidades possíveis

I

A presença maciça da tecnologia, principalmente a tecnologia digital, tem alterado violentamente a maneira como entendemos aquilo que denominamos “realidade”. Aceitando que conhecemos o mundo apenas através dos sentidos, então é possível afirmar que o conhecimento adquirido por meio deles possui caráter perceptivo e a representação deste mundo se dá pelas percepções colhidas via sentidos. Assim aquilo que chamamos realidade, não é mais do que um conjunto de percepções e não os fenômenos eles mesmos. Para ser mais preciso: quando olhamos pela janela à noite e vemos a lua no céu, não vemos a lua ela mesma, mas apenas uma percepção da lua. Estou tentando aqui aplicar o princípio empirista de David Hume, o qual sentencia que para toda idéia presente na mente há uma impressão responsável por gerá-la. Segundo Hume, tanto impressão quanto idéia são percepções, ou seja, tudo que existe em nossa mente, tudo o que sentimos através dos sentidos são percepções. Portanto, quando vemos a lua pela janela à noite, não vemos a lua ela mesma, mas a impressão da lua naquele momento, e quando lembramos daquele momento, não fazemos mais do que consultar a idéia referente àquele momento em que olhávamos para a lua no céu.
Esse pequeno recuo ao empirismo humeano não é gratuito, pretendo com isso mostrar que se tudo que conhecemos são percepções, e num primeiro momento entramos em contato com as impressões das coisas através dos sentidos, aquilo que chamamos de “realidade” não passa de percepções presentes na mente. Uma vez que captamos a “realidade” por meio dos sentidos, qualquer alteração sensorial nos apresentará a “realidade” de outra maneira, ou ainda, nos apresentará outra “realidade”. Dito isto podemos voltar à questão dos avanços tecnológicos e sua relação com a arte.

II

Quando a fotografia surgiu, tornou obsoleta a expressão da pintura através de uma técnica que buscava reproduzir com perfeição a “natureza”. Não havia sentido retratar uma paisagem ou uma pessoa, uma vez que este objetivo era alcançado com perfeição por este novo instrumento chamado máquina fotográfica. Houve então, o rompimento do artista com a natureza. A arte deveria neste momento explorar outros universos, deveria se voltar para aquilo que representava o rompimento com a natureza, ou seja, a substituição de nossas capacidades naturais de interagir com o mundo, de conhecê-lo, de percebê-lo, pelas novas capacidades que nós humanos estávamos adquirindo, quais sejam, as de conhecer, perceber e interagir com o mundo através de instrumentos que simulavam ou mesmo aumentavam os poderes dos nossos sentidos.
Alterados os poderes de nossos sentidos, alterou-se também a maneira como as percepções chegam à nossa mente, ou seja, considerando junto com Hume que não conhecemos mais que percepções, temos alteradas também a “realidade”, esta sempre de caráter perceptivo. O “real” ganha novas dimensões. A revolução digital alterou o modo como apreendemos o mundo, os detalhes que não podem ser percebidos a olho nu são alcançados sem maiores problemas pelo uso de máquinas digitais potentes, microscópios com poder de aumento impensável pelo homem comum, telescópios que alcançam distâncias apenas concebidas pelo uso da imaginação. A realidade com a qual passamos a nos confrontar está muito além daquela realidade percebida pelos sentidos sozinhos. As “próteses”, que são estes instrumentos responsáveis por aumentar a potência de nossos sentidos, levam-nos a uma realidade alternativa, uma espécie de “super-realidade”.
Estas transformações são um prato cheio para as artes visuais, que explorando estas novas possibilidades de construção da experiência estética, nos apresentam imagens fantásticas, possíveis apenas pelo uso criativo e expressivo do artista, que faz de algo frio e de uso específico, como são os instrumentos tecnológicos, meios pelos quais atingimos fins que colocam em evidência o potencial expressivo destas novas tecnologias.

III

Todas estas considerações acerca da relação entre arte e as novas tecnologias, tem como objetivo apresentar o trabalho do artista visual Luiz Henrique, Tozin para os amigos, que será nosso entrevistado do mês de maio aqui no Born To Lose. Tozin, assim como todos os nossos entrevistados, enveredou pelos caminhos da arte atendendo um chamado pessoal, uma necessidade tão aguda quanto o próprio ato de respirar, a necessidade de se relacionar com o mundo de maneira a privilegiar, ao menos para si mesmo, as questões que lhe afligiam. Instintivamente, podemos dizer, procurou os meios de saciar esta necessidade, foi assim que as artes visuais entraram em sua vida.
Trabalhar com artes visuais significa assenhorear-se de determinadas técnicas próprias à linguagem das artes visuais, portanto, ligadas à fotografia, ao vídeo, à computação gráfica, etc, bem como ter à disposição os instrumentos necessários à produção artística desta vertente, como máquinas fotográficas, um estúdio de trabalho, um computador de ponta, câmeras de vídeo, dentre outras coisas. Dá pra ver que não é barato ser um artista visual né não? Contudo, como todo bom artista, qual seja, aquele que procura de todas as maneiras satisfazer sua necessidade de expressão, Tozin iniciou seu trabalho através da câmera de seu celular: os resultados são surpreendentes! Não há exageros nesta exclamação, confiram com os próprios olhos algumas fotos feitas pelo artista com sua câmera de celular.








Tozin desbravou seu caminho de facão na mão e muita vontade dentro de si. Suas fotos nos oferecem uma realidade perceptiva diversa, que não pode ser percebida a olho nus. O uso da tecnologia como expressão artística é feito de modo bastante criativo por Tozin e sua fome por novas “realidades” não param por aí, confiram a entrevista que o artista gentilmente nos concedeu no próximo dia dez aqui neste mesmo blog. Então até lá meus amigos.

Querem conhecer um poco mais do trabalho de Luis Henrique Tozo, acessem seu blog, o endereço é http://umacoisafacil.blogspot.com/.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Entrevista com a Artista Plástica Paula Inácio


Born To Lose – A primeira pergunta é uma espécie de ritual, ela será a primeira não só de sua entrevista, mas de todas as outras. O que você entende por arte, qual sua concepção particular do que seja arte? Seja o mais subjetiva possível.

Paula Inácio –
Caramba! Estremeço um pouco frente a perguntas o que é, mas como a resposta pode ser bem subjetiva, vamos la! A arte é algo que me toca, por exemplo, quando estou desenhando, sinto uma vontade enorme de chorar e ao mesmo tempo de sorrir, ao escutar uma música que muito aprecio o mesmo sentimento me invade, é um sentimento tão intenso que gosto de experimentar sozinha, não quero ninguém por perto. O mesmo acontece com a literatura, tem livros, poesias, que nos acontecem, que são inseparáveis de nós, caminham conosco, então a arte, no meu entendimento, é essa experiência bem singular, que nos tira um pouco do ter que fazer, ter que ser diário e nos faz sentir angústia, alegria...

Born To Lose –
Seus trabalhos com desenho apresentam uma característica bastante particular, seus traços expressam um modo próprio de constituição das imagens. Em alguns desenhos pode-se notar o uso de um instrumento não usual entre os desenhistas, que é aquela caneta de três cores da bic. O modo como faz seus desenhos tem alguma influência específica, você pensou primeiramente num modo de desenhar para em seguida partir para a prática? Como surgiu a idéia de usar a caneta de três cores em seus desenhos?

Paula Inácio –
Sim, as canetas! Na verdade não foi programado, mas aconteceu. Antes delas, fazia esboços com lápis e em seguida utilizava a tinta. Porém, quando fui morar em Salvador, em 2005, não tinha espaço nem condições de pintar, e o único material que tinha disponível eram as canetas. Inicialmente comecei a experimentar com canetas azuis e pretas, e percebi que conseguia fazer efeitos e traços diferentes, que até então não tinha experimentado. Foi um período em que desenhava freneticamente, sempre estava rabiscando algo. Então comecei a ir às papelarias e comprar canetas de cores e pontas variadas, bem como papéis de diferentes cores e texturas. Gostei dos efeitos e acho que meus desenhos ficaram mais nítidos a partir de então. Até hoje as utilizo!

Born To Lose – Na verdade você respondeu apenas parte da pergunta. (rs) Você ficou nos devendo uma resposta para a outra parte da pergunta a respeito das influências sobre seu modo de desenhar: elas existem ou não? Ainda há uma terceira parte se prestarmos atenção. (rs) Houve uma reflexão previa de como você deveria desenhar?
Paula Inácio – É verdade! Então, penso que a influência primordial, ou o que me levou a desenhar, foi a convivência com meu pai e todo o ambiente que ele me proporcionou. Meu pai chama-se Antônio Inácio e o considero um grande escultor! Além das esculturas ele também desenha, quando criança, sempre encontrava desenhos dele dentro de alguns livros e até hoje os encontro. Esses desenhos são feitos à caneta e em pequenos pedaços de papel. Além disso, ele sempre nos proporcionou um ambiente que considero experimental, por que crescemos em meio a livros de arte, desenho, tintas, músicas, e tudo sempre a nossa disposição. Acredito que essa foi a influência primeira. Apesar de não ser estudiosa da pintura, um artista que gosto muito de apreciar as imagens é o Miró, me identifico bastante com sua obra. Em relação se houve ou não reflexão previa de como desenhar, não houve e até hoje não tem. Quando começo a desenhar não pré-defino o que vou desenhar, começo com um traço primeiro e a partir dele as possibilidades de construção de formas e imagens vão surgindo, são inúmeras possibilidades, mas apenas uma se delineia! Apesar do que, se observarmos há determinadas imagens que são constantes, mas os desenhos vão sempre se modificando. Tenho muita dificuldade, por exemplo, de representar uma determinada figura, ou desenhar algo em um sentido já orientado.

Born To Lose –
Considero esse um ponto forte de seu estilo. O fato de não ter estudado para pintar e desenhar, o que talvez lhe permitisse suprir essa dificuldade que você aponta de não conseguir reproduzir imagens, como retratos ou mesmo outros desenhos. O seu caso me parece o oposto daquele de Picasso que era um exímio retratista e usou dessa técnica, de um estudo rigoroso para chegar ao cubismo, que a um leigo pareceria algo feito por alguém com dificuldades em desenhar com perfeição. No seu caso a necessidade de desenhar parece se impor e meio que instintivamente você é levada a traçar suas telas, suprimindo as deficiências de ordem técnica. Levando em conta essas considerações, você acha que seria um exagero de minha parte dizer que o seu trabalho traz uma expressão artística original? Sem modéstia, por favor. rs

Paula Inácio –
Se formos analisar desta forma parece que sim, até então não tinha pensado sobre isso. Realmente nunca estudei desenho, técnicas de desenho, mas, no entanto, desenho. E, como você disse muito bem, é uma necessidade que sinto e a partir disso os traços vão surgindo.

Born To Lose – Esta talvez seja uma pergunta mais difícil de responder porque pega por um viés mais pessoal. Você é formada em pedagogia pela Universidade Federal de Viçosa, faz mestrado pela Universidade Federal Fluminense e é pedagoga da rede municipal de ensino de Cabo Frio – RJ. O que levou você a estudar pedagogia? Porque não procurou fazer o curso de artes plásticas, por exemplo?
Paula Inácio - Realmente é uma pergunta um pouco difícil..rs Bom, quando terminei o ensino médio, não tinha perspectivas do que gostaria de estudar, ou aprender profissionalmente, e o desenho ainda não se delineava como uma possibilidade concreta de estudo. Cursei pedagogia porque, dos cursos que a UFV oferecia na época, era o que eu achava possível de fazer. Confesso que hoje, apesar de atuar na profissão, não consigo me identificar com a atuação de um pedagogo na escola. Em relação ao curso de artes plásticas é aquilo mesmo, comecei a desenhar sem finalidades maiores, à medida que os desenhos se desenvolveram percebi que seria interessante estudar a história da arte, as técnicas de desenho e pintura, porém, já estava cursando a pedagogia e não tive ousadia de interromper o curso. Atualmente tenho vontade de aprender técnicas e instrumentos diferentes, devido às possibilidades de recursos que poderei utilizar para criar os meus desenhos. Hoje sinto mais essa necessidade do que quando comecei a desenhar.

Born To Lose –
Bem, você tem algum projeto artístico em mente, como está sua produção artística atual?

Paula Inácio -
Então, confesso que atualmente estou produzindo pouco e, por enquanto, não tenho nenhum projeto em mente. Tenho perspectivas de retomar assim que possível, mas por enquanto tenho desenhando bem esporadicamente.

Visitem o blog Curvas e Retas e conheçam mais sobre o trabalho da artista Paula Inácio. O link é http://curvaseretas.blogspot.com/.



domingo, 5 de abril de 2009

Uma outra perspectiva acerca da imprensa cubana?




Nos últimos dias vocês acompanharam textos divergentes a respeito da condição política e social em Cuba. Tudo isso por eu ter postado um texto comentando um blog da filóloga cubana Yoani Sanches, Generacion Y. Meu caro amigo Rogério Saraiva escreveu alguns comentários que tentam mostrar o quão equivocada é esta visão passada pela cubana em seu blog. Postamos aqui no texto Generacion Y: Uma nova revoluçao cubana o link do blog Generacion Y e também a entrevista cedida à revista Veja pela Yoani. Como não queremos aqui fazer juízo de valores, colocamos a disposição dos leitores o site mineiro Soy Cuba Soy Minas Gerais, que reforçam o ponto de vista exposto por Rogério Saraiva em suas observações.

o link é http://soycubasoyminasgerais.blog.com/. Leiam, é uma outra perspectiva acerca da imprensa cubana, bastante diferente daquala passada pela Yoani Sanches e que pode permitir ao leitor que se interessou por essa questao cubana a conhecer melhor a condicao política e social daquele país. Desejo a todos uma boa pesquisa!

Volto e passo a vocês mais dois links presentes no blog o Pensador da Aldeia escrito pelo professor Pedro Jonas de Lima Piva. Ele argumenta contra Generacion Y e procura mostrar de forma bastante lúcida e com argumentação direta e seca as contradições presentes nas críticas feitas ao governo cubano. Além destes textos que podem ser encontrados através dos links abaixo, existem outros sobre as relacçoes entre Cuba e Estados Unidos e outros temas ligados à política nacional. Vale a pena conferir.

http://opensadordaaldeia.blogspot.com/2009/04/obama-o-degelo-da-ditadura-norte.html

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Nova Revolução Cubana, será?


Esta é uma segunda postagem do texto divulgado no blog no final de março, em que falava do blog da cubana Yoani Sanches. Resolvi postar novamente o texto agora com comentários de Rogério Saraiva contrário a tudo o que foi dito por mim no texto sobre a blogueira. Ele passou um mês e nao uma semana como eu havia dito em resposta a sua primeira postagem, em Cuba e mostra uma imagem bastante diferente daquelas transmitidas por todos os meios de comunicaçâo, de que nâo há regime autoritário em Cuba e que a maior parte da população está feliz da maneira como está vivendo. Contudo nao podemos esquecer questões factuai como a fuga em massa de cubanos para Cuba, e muitos cubanos que demonstram insatisfaçao com o regime cubano, como os músicos cubanos que vieram fazer shows no Nordeste do Brasil e não voltaram para Cuba por nao estarem satisfeitos com a condição de seu país, ou como musicos como Ibrahim Ferrer e Compai Segundo que passaram quase toda a vida enrolando charutos e somente no final da vida tiveram o devido reconhecimento por sua música. Contudo meu querido amigo Rogério fala com conhecimenento de fato,foi a Cuba e viveu um pouco do cotidiano cubano. Porém o conhecimento de fato só é o bastante para aquele que viveu a experiencia, e quando emprega num debate pode tomar contornos de um apelo a autoridade. Assim, uma vivencia só tem força para aquele que a viveu, para os outros que escutam seu relato tem apenas a força de um relato. Portanto amigos leiamos, pesquisemos e procuremos ahcar nossas proprias conclusoes.

Lendo uma das edições eletrônicas da revista Piauí, deparei-me com uma reportagem cujo conteúdo assumiu ares de descoberta. O tema era a filóloga cubana Yoani Sanches, que em 2008 esteve na lista das 100 pessoas mais influentes do mundo divulgada pela revista norte-americana Times.
O “poder” desta cubana franzina não vem da construção de relações dentro da política internacional, ela não é uma mega empresária cuja empresa possui filiais em todo mundo e nem possui um botão em seu apartamento com o qual pode ativar o lançamento de todo arsenal atômico americano e russo. A influência de Yoani se dá no campo das idéias. Não queridos amigos, ela não possui nenhum cargo entre os “homens de confiança” de Fidel, nem é jornalista, muito menos escreve para qualquer veículo de comunicação de grande porte. Yoani expressa suas idéias através de um instrumento usado por milhares de adolescentes de todo mundo, o blog. Ela transformou esse espaço que serve a muitos como simples agenda pública num instrumento de questionamento e reflexão, que tem colocado os governantes cubanos de cabelo em pé, ao menos o pouco de cabelo que ainda tem.
Quase diariamente são publicados textos em seu blog Generacion Y, que discutem questões referentes à realidade do povo cubano. Seu discurso é direto sem perder a elegância. As pessoas que mantêm blogs por aqui podem se admirar por alguém conseguir manter um fluxo de textos, mas pelo motivo errado. Ficarmos admirados com a produtividade de Yoani é ficar admirado pelo motivo errado, pois em Havana a internet é proibida à população, seu uso é restrito ao alto escalão do governo cubano. Existem apenas dois ciber-cafés na capital da Ilha e além destes dois locais, internet apenas nos hotéis. Em entrevista concedida à revista Veja a filóloga diz que para acessar a internet destes ciber-cafés, tem-se que enfrentar filas imensas, que podem levar até três horas de espera. Não é só tempo que se perde tentando acessar a internet em Cuba, os preços pelo acesso são excessivos e levam cerca de um quarto do salário do cubano. Yoani vive uma verdadeira odisséia todos os dias, não só para postar seus textos como para sobreviver.
Peço que ao acessarem o Generacion Y leiam em especial o perfil de Yoani, é uma leitura bastante forte, faz aflorar emoções de muitas espécies. Outra característica que impressiona no blog é a quantidade de postagens encontradas em cada um dos textos, alguns ultrapassam os mil comentários. A qualidade também é a marca destes comentários, muitos deles são verdadeiros textos críticos dialogando com a blogueira. Não é exagero dizer que Yoani inaugurou um modo de usar o blog e de se expressar via internet. O mundo reconhece seu trabalho, atacado pelo governo cubano, em muitos momentos até pelo próprio Fidel Castro. Generacio Y é um marco na reflexão política latino americana. Antes de terminar queremos ressaltar outro trabalho de Yoani o site desdecuba.com que mantêm com um grupo de amigos em Havana. Os links para o blog Generacio Y e o site desdecuba.com podem sem encontrados na sessão de links Sem Papas na Língua do nosso blog Born To Lose.

Confiram a entrevista de Yoani para a revista Veja, o link é:

http://veja.abril.com.br/280508/auto_retrato.shtml

Fidel ataca Caetano Veloso devido seu comentário a texto publicado pelo Generacion Y confiram:

http://www.obraemprogresso.com.br/tag/generacion-y/
Postado por Carlos Inácio Coelho Neto às 16:11
3 comentários:

Rogério Saraiva disse...

Meu caro amigo,

visitei o blog desta senhorita e não estou de acordo com as palavras dela. Como você mesmo sabe, tive o prazer de ficar um mês em Cuba no começo deste ano e o que mais se falava lá era sobre a abertura do governo dos EUA à Cuba e de cara, vejo palavras tendenciosas logo no primeiro/último post da Yoani. Como ela disse "Os jornalistas andam absortos em outros temas: a colheita de batatas, o mundial de beisebol, a revolução bolivariana e - está claro - os festejos pelo dia da imprensa cubana." é uma verdadeira mentira. Ao chegar em Cuba, fiquei até mesmo puto, pois não tinha nenhum festejo dos 50 anos de Revolução, tanto em Havana, quanto nas cidades interioranas. Tive o prazer de trazer muitos jornais/periódicos cubanos, desde do meio do ano passado ate os dias que estava lá e em todos, notícias importantes sobre o embargo e sua abertura.

Discordo de você quanto ao conteúdo do blog dela, pra mim é de baixo conteúdo, pois ataca algo ao governo cubano que é inverídico. Não vi por exemplo, críticas a burocracia que o Estado exerce, os três problemas, alimentação, moradia e transporte que o Estado não consegue resolver e etc. Problemas que você encontra até sob tese de doutorado, a qual comprei por 50 centavos numa livraria em Havana e de alta qualidade.
2 de Abril de 2009 09:43
Carlos Inácio Coelho Neto disse...

Existem posts bem anteriores em que ela trata deste tema. Uma coisa é visitar um país, outra é viver nesse país, ainda mais sobre um regime autoritário. Muitas questoes colocadas pela Yoáni referem-se ao direito de se expressar livremente, coisa que o governo cubano nao permite, o proprio Fidel Castro deu ordem de nao deixá-la sair do pais. Isso meu caro é fato. Vai me dizer que nao há um controle do governo sobre o que se escreve nos jornais de Cuba? Vai me dizer que não há ditadura, que o direito de ir e vir das pessoas nao é vetado? Tudo bem você achar que Cuba é o paraíso passndo uma semana lá e baseado nesta experiencia discordar do que a Yoani diz, contudo acho um pouco pretencioso dizer que o conteudo do blog é de baixa qualidade. Isso Rogério, percebe-se facilmente que nao é, basta ler os textos desarmado, sem conceitos prévios, pra nao dizer pre conceitos. Pode ser que ela nao expresse a opiniao da maioria da populaçao cubana, mas ela tem a visao dela, aquelka condicao de vida nao a satisfaz portanto ela pode expressar sua insatisfaçao. E claro, é perfeitamente possivel argumentar contra o que ela diz, contestar linha por linha, o que nao pode é fazer juizo de valor.

Gostei da postagem, botou lenha na fogueira. rs.
2 de Abril de 2009 12:22
Rogério Saraiva disse...

Não passei uma semana, passei um mês a qual tive a oportunidade de fazer três cursos, um congresso, de ir em 5 cidades cubanas, visitar escolas, centros culturais, pontos turísticos, Ministérios do governo a qual fui muito bem recebido e o mais importante, muitas casas de cubanos, que inclusive a família que mais gostei, me convidaram para o seu casamento e pode-se encontrar fotos deles em meu orkut, onde também mantemos contato via telefone e e-mail. Em Cuba tive a oportunidade de participar de manifestações contra o sionismo de Israel e a favor da Palestina, um ato maravilhoso que realmente você via a indignação dos cubanos em relação ao conflito. Alguns dias depois, vi alguns cubanos na rua gritando abaixo o comunismo, abaixo fidel, fidel é viado e etc. Fiquei abismado, pois os policiais que se encontravam perto dali, nao fizeram absolutamente nada, muito pelo contrário, até viraram o rosto; aliás, você quase não vai ver policiais em qualquer cidade em cuba, até na capital Havana.

Existem milhares de jornais em Cuba e repito, trouxe alguns comigo, onde pode se ver críticas ferozes ao governo, principalmente o jornal "jeventude rebelde". Também trouxe revistas maravilhosas a preço menos que banana, que os próprios estudiosos cubanos encaram pau a pau os problemas do Estado. Essas revistas se chamam "Casa" e "Caminos", onde vc encontra textos de Saramago, Emir Sader, Boaventura de Souza Cruz, Paulo Freire e muitos outros.

Qualquer cubano tem o direito de ir e vir! Isso já está mais que saturado em Cuba. Só oficiais das Forças Armadas que não podem sair do país. Quando você pra outro país, é este que deve aceitá-lo ou não e não o seu país de origem. Isso se chama concessão e muitos países não aceitam os cubanos, pois eles são mão de obra altamente qualificada e poderiam ser eventuais imigrantes.

O Estado é o maior subsidiário de tudo que envolve publicações literárias, acadêmicas e jornalísticas, isso não significa dizer que é o único. O Estado por exemplo, não quis publicar um autor chamado Gutierrez, a qual tive o prazer de ler e pra mim é o segundo Paulo Coelho, por concluir que a escrita dele não tem representatividade nenhuma e certamente Paulo Coelho não seria publicado lá também. Esse autor simplesmente conseguiu apoio estrangeiro e de seu bolso e publicou seus livros. Você pode encontrá-los aqui ou lá. Acontece que lá, ele quase não é lido não pq o governo não quer, os próprios cubanos não desejam.

Digo de baixa qualidade, por representar um conteúdo tendencioso e tacanho. Posso informar duas autoras qualificadas, gabaritadas que destroem muito mais o governo cubano ao que parece que essa garota quer, com muito mais classe, estudos, fundamentos, sem fazer nenhum discurso tendencioso. Os nomes dela são María Isabel Romero e Ania Mirabal.

Ao pesquisar sobre essa garota com amigos que moram em Cuba, eles disseram que todos sabem da história dessa garota e que ela recebe uma boa grana em sua conta bancária daqueles que ficam solidários à sua causa e ela nunca foi proíbida por ninguém de sair de Cuba! Aliás, uma opinião minha, seria muito mais fácil conviver com alguém que te xinga, longe do morando na mesma casa.


E claro, ela pode se manifestar quando quiser, não é o que ela está fazendo? Se o Estado Cubano fosse tão autoritário assim, já tinham cortado a internet dela e mandado-a para o paredão.

Em Defesa de Kill Bil, Primeira Parte


O cinema é o irmão caçula das demais formas de arte, seu registro de nascimento foi lavrado entre as primeiras décadas do século XX. Esse fato distancia a sétima arte de suas irmãs mais velhas, que surgidas no período clássico da civilização ocidental puderam vivênciar, participar e sofrer suas tranformações no seio das mais diversas sociedades. O cinema ao contrário se vincula apenas à sociedade de massa formada ao longo do século XX e que aponta para uma nova metamorfose no século XXI. Portanto, o cinema se transforma intimamente ligado a essa etapa do capitalismo, em que tudo se volta quase que necessariamente ao consumo extremado. E a meu ver existe apenas um critério nesse contexto de consumismo desenfreado que permite determinar o que é fruto da arte e o que é fruto da indústria pura e simplesmente: saber se o resultado de um dos sete campos da arte é ou não puro entretenimento.
O entretenimento é apenas uma das facetas da sociedade de massa a qual disseminou suas raízes pelos sete campos da arte tal qual um musgo que se lança sobre uma parede ou uma rocha. Desse modo, a indústria do entretenimento atua com o objetivo de transformar as obras de arte em produto de consumo a ser oferecido nas prateleiras das lojas de departamento mundo afora. Podemos então, a partir do que até aqui foi dito, considerar estarmos no limite do que pode ser considerado obra de arte e o que não passa de objeto de consumo. Embora a obra de arte possa ser consumida ela não possui apenas essa característica, ela não é apenas produto, ela também é arte. Ocorre o contrário com aquilo que é apenas produto e que é vinculado à arte pelo simples fato de possuir um determinado formato, assim, a banda Calypso embora seja apenas produto de consumo é chamado de música, ou seja, uma das expressões da arte, por ter características musicais. O mesmo se aplica à literatura, cinema, etc. Para que sejamos mais claros afirmaremos de maneira direta e incisiva que a banda Calypso não é música porque é entretenimento puro.
O cinema está imerso nesse contexto mais do que qualquer outra forma de arte porque sua transformação ocorre simultaneamente às transformações da sociedade em que foi gestado. Assim, lançamos as seguintes questões: o que um filme deve ter para ser considerado obra de arte? Basta ser feito sem patrocínio, sem o apoio de um grande estúdio, estar fora de Hollywood? Como identificar se um filme é entretenimento ou não? Quando ele é experimental é arte, quando é dinâmico é entretenimento? A questão fundamental nesse caso é saber se um filme é entretenimento puro e quando possui algo mais, quer dizer, quando permite reflexões, quando produz mudanças perceptivas, quando altera nosso humor, nossas emoções e por aí vai. Essas questões ficam mais difíceis quando dirigidas a um modo particular de fazer cinema, o modo de fazer cinema de Quentin Tarantino. A discussão aqui abordada gira em torno de um filme específico: Kill Bill. Quando nos referirmos a Kill Bill nos referimos aos dois filmes conjuntamente, como uma única obra.
Para alguns este filme não passa de mais uma produção hollywoodiana, sem qualquer relação com uma perspectiva estética em sentido forte, ou seja, é uma bosta completa, pra falar de modo literal. Por isso mesmo deveria ser relegado, juntamente com seu diretor, Quentin Tarantino, ao círculo das mega produções bancadas pelos grandes estúdios cinematográficos cujo único fim é o lucro certo arrecadado através das bilheterias pelo mundo.
Permitimo-nos discordar dessa posição um tanto quanto apressada, simplesmente porque acusar Kill Bill de hollywoodianismo, o que é o mesmo que considerá-lo puro entretenimento, é uma atitude um tanto quanto anacrônica. Entendemos o termo hollywoodiano como definição de uma espécie de filme de contexto comercial, a forma pura do entretenimento, e nesse caso entenda-se como a reprodução de um padrão de composição do filme (montagem, roteiro, locação, a maneira como as cenas são filmadas, etc.), o que significa seguir um tipo de padrão estético a ser consumido nas prateleiras de locadoras, cinemas e lojas de departamento. O filme nesse caso não consegue ser algo além de um produto a ser consumido. Para fazer um filme dessa espécie basta grana e seguir uma determinada receita. Outro ponto se refere à alienação do diretor e da produção às exigências dos grandes estúdios que os financiam. Queremos defender o filme dessa acusação e mostrar que Kill Bill não se enquadra em nenhuma dessas características expostas do termo hollywoodiano. Finalmente afirmamos ser anacrônica a comparação entre Quentin Tarantino e Jean Luc Godard, que faz parte do seu segundo ataque, caro amigo, ao Kill Bill.

I
Quentin Tarantino insere-se numa tradição cinematográfica diretamente associada à consolidação dos grandes estúdios cinematográfico e da indústria do cinema representada por Hollywood. Essa é a maneira americana de se fazer cinema e a maior parte dos grandes diretores americanos esteve dentro desse contexto. Citamos entre estes os nomes de Stanley Kubrick, Orson Wells, Francis Ford Coppola, Martin Scorcese, Oliver Stone, entre outros. Todos esses diretores ao filmarem seus grandes filmes estiveram sempre vinculados a algum estúdio de Hollywood. Aqui registramos um fato que não impede a criação de filmes que sejam verdadeiras obras de arte, citemos os casos de Spartacus, a trilogia doe O Poderoso Chefão, Cidadão Kane, Touro Indomável, Platoon, todos filmes de alto teor hollywoodiano.
Fazer um filme sob a regência de um estúdio de Hollywood não faz do filme hollywoodiano, ao menos no sentido exposto logo no início desse texto. Kill Bill é um filme de ação recheado de clichês próprios dos filmes comerciais e realmente poderia levar o espectador distraído ou o cinéfilo obcecado pelo plano teórico a desprezar as características particulares do filme e considerá-lo como mais um entre tantos outros filmes de ação existentes. Contudo, Kill Bill encontra-se fora dos limites que abrigam a definição de filme comercial de ação. Isso porque o roteiro não é pré fabricado, há uma intenção por traz de cada cena feita que busca satisfazer as expectativas estéticas do diretor ao mesmo tempo que estabelece um formato que imprime no espectador uma percepção própria do que acontece na tela, destacamos o método de montagem não linear do filme, característica particular de seu diretor. E não só isso mas o fato de estarem em conjunto no filme uma série de linguagens que se coadunam e deslocam o espectador para uma outra maneira de se perceber as cenas de ação. A violência exposta durante Kill Bill não é gratuita, pois serve ao próposito principal do roteiro que é a vingança da Noiva. Cada morte produzida pelo aço da espada Hatori Hanzo da Noiva representa a proximidade de ter saciado o desejo de vingança.
Contudo o desejo de vingança presente em Kill Bill não é aquele desejo banal e muitas vezes sem sentido, enfim, uma justificação para as medidas extremas tomadas pela noiva. Não há questão moral no sentido de que a Noiva é um personagem de bom caráter que é levada à adotar medidas violentas para realizar uma boa ação. A Noiva é motivada pela desejo de vingança sem haver qualquer questão moral envolvida. Existe apenas a violência resultado de um sentimento de vingança. A cena da luta com os Oitenta e Oito Loucos ilustra bem essa perspectiva. A violência se faz presente em estado absoluto e aquilo que é a Noiva e seus adversário desaparece dando lugar àquilo que poderia ser considerado a imagem da vilência, seu rosto, sua face. Por isso a necessidade de uma luta envolvendo tantas pessoas, aquilo que são os idíduos desaparece dando lugar a uma totalidade, à materialização da violência. Assim como ocorre em uma batalha entre exércitos da antiguidade, o nùmero de participantes é tão grande que deixamos de ver indíviduos para ver uma enorme entidade que se forma.
Nessa seqüência de cenas em particular a violência é liberada pelo desejo de matar não os Oitenta e Oito Loucos, mas sua líder, O-Ren-Ishi. Para matar O-Ren é preciso antes matar seus capangas. A Noiva è uma espécie de Hércules às avessas. Ao contrário do mitológico herói grego a Noiva vence seus obstáculos na procura de fazer vingança. Outro ponto que devemos destacar com relação à noção de vingança em Kill Bill se refere à satisfação de um desejo pessoal, enquanto na maior parte dos filmes-receita de ação a motivação da vingança é um desejo de se fazer justiça. Isso porque quase sempre o foco da ação que dá origem à vingança é outra pessoa, geralmente a filhinha, a esposa, os pais ou os amigos, e não o vingador. Em Kill Bill é isso que acontece, a vingança da noiva não vai além disso, não há nada que enobreça essa vingança.
A história é contada de modo fragmentado e as peças se encaixam formando sua totalidade a medida que o filme se desenrola. Não há como saber o que acontecerá na cena a seguir. O espectador é preso ao filme inicialmente pelo simples fato de se encontrar confuso quanto aos acontecimentos, pois não consegue traçar uma linha interpretativa para os acontecimento e nesse sentido a vingança deixa de ser a vingança comum aos filmes de ação. O espectador é violentado pelas cenas, pelos acontecimentos que de início parecem gratuitos. Esse é um dos pontos fortes do filme: uma interpretação so é possível a partir da segunda parte da história (Kill Bill Vol. 2). São dois momentos distintos que se completam. Durante todo o Kill Bill Vol. 1 os acontecimentos pegam o espectador de assalto o tempo todo sem dar explicações, entrando de sola literalmente. O filme acaba e a sensação de estranheza é inevitável. E ela se mantêm até que se assista o Vol. 2.
Quanto as linguagens, que você querido amigo julgou exageradas, digo que são mesmo exageradas, mas o modo como Tarantino as usa imprime-lhes um sentido simples que não compromete o fluxo tranquilo do filme. Não há arestas na montagem dessas linguagens, o que é bastante difícil de se conseguir ao colocar em contato linguagens cinematógráficas tão díspares como os filmes B de artes marciais, o western os filmes de ação etc. E conjugado com esses genêros do cinema todos os clichês que lhes são próprios.
O que está em jogos em todos os filmes de Tarantino sem exceção é a estética pulp, que consiste naquele genêro literário duvidoso (se é que se pode chamar aquilo de literatura), de caráter sensacionalista e bastante underground que teve seu auge nos anos trinta e quarenta. Nesse tipo de literatura a preocupação é a venda dos livros e para tal a linguagem utilizada era bastante simples e refletia o cotidiano americano conjugado a histórias fantásticas muito em moda naquela época. Quentin Tarantino, pode-se dizer firmemente, introduziu esse elemento de modo fantástico no cinema e Kill Bill é o ápice dessa influência, além de revelar a maturidade desse diretor.
Desse modo os filmes B de artes marciais constituem um elemento pulp por contar com recursos parcos para produção dos filmes e por não ter como objetivo construir uma obra de arte. Diferentemente de Tarantino que insere essa estética no filme de modo a acentuar a dinâmica da violência presente no filme. Do mesmo modo utiliza a linguagem da animação para contar a história de O-Ren Ishi com estilo próprio aos desenhistas mangás. Cada elemento pop-pulp utilizado na montagem da sequência de cenas presentes no filme é encaixada com precisão e refletem um roteiro elaborado bem como uma filmagem cuidadosa. Que revela pouco interesse com a questão experimental, o que significa apenas que o filme não é experimental.
A ação de Kill Bill e a violência por ela expressada afirma sua identidade própria o que o afasta do padrão presente nos filmes de ação comercial produzidos em larga escala pelos estúdios de Hollywood. Portanto o termo hollywoodiano ou blockbuster não se aplica a Kill Bill, que embora não seja um ícone do cinema conceitual, que não compartilhe do ideal experimentalista tão em moda entre os cinéfilos de plantão, ainda sim é um grande filme, pois possui uma linguagem própria, livre de rótulos.

II

Se há uma Verdade em cinema, uma unanimidade, essa deve ser que Jean Luc Godard é incomparável, mesmo que Nelson Rodrigues já nos tenha avisado de antemão que a unanimidade é burra. Realmente não é possível determinar parâmetros para os filmes de Godard. O diretor francês não apenas dispõe de um etilo de composição bastante particular no que toca o experimentalismo como é referência para cineastas dos quatro cantos do mundo. Em Glauber Rocha, por exemplo, é notória a influência de Godard, além claro de termos vários registros tanto escritos quanto filmados do diretor brasileiro pagando o maior pau para a obra do diretor francês.
A meu ver, a contribuição de Godard ao cinema está no alto grau de experimentalismo de suas filmagens que arrebatam o espectador de forma incisiva, causando todo tipo de reação, que vai da revolta e mal estar ao delírio e admiração. Isso porque assistir um filme de Godard exige certo apuro do espectador, que não pode assistir ao filme sem conhecer alguma coisa do cinema, e digo conhecimento de caráter técnico e conceitual. Os filmes de Godard se dirigem a um público específico preocupado com a linguagem cinematográfica, preocupado em experimentar, ou seja, são eles diretores ou estudiosos do cinema enquanto arte.
Seguindo esse raciocínio, como fazer uma comparação entre o cinema de Godard e de qualquer outro diretor sem que com isso terminemos por considerar um dos lados como expressão maior do cinema e outro uma bosta completa? Em nosso caso específico, como comparar Godard a Tarantino? O resultado está previsto na pergunta anterior e foi o que aconteceu quando se tentou analisar o cinema, o jeito de se fazer cinema enquanto arte, a partir da perspectiva godardiana. Como dissemos, Godard é único, sem que com isso seja especial ou divino, e exigir de um diretor que para alcançar qualidade em seus filmes deva se aproximar o máximo daquilo feito pelo diretor francês não é mais do que se alienar a uma única perspectiva estética.

Delírio Junk



álcool, cocaína, tabaco, anfetamina
êxtase, heroína, haxixe, mescalina
maconha, diorexidrina, LSD, cafeína
ópio, codeína, lexotan, morfina
crak, diamorfina, cola, naobufina.

A vida é mesmo o maior barato!!!!!

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Coisa material também é gente


Recentemente tive que me desfazer de alguns objetos pelos quais nutria um carinho imenso. Tais objetos estavam comigo há muitos anos e não pude deixar de me livrar deles com um aperto muito grande no coração. Geralmente o tempo de uso desse tipo de objeto é muito curto e as pessoas os descartam sem qualquer dor na consciência. Porém pra mim coisa material também é gente. Havia algumas camisas e bermudas que estavam comigo desde quando vim para salvador em 2000 e agora em 2008 fui obrigado a me desfazer delas. Outros objetos em sua maioria cadernos e folhas de papel tiveram o mesmo destino.
Partiu de pessoas queridas a sugestão de jogar fora esses objetos com os quais dividia uma história, com os quais passei situações muito desagradáveis e outras muito boas, que marcaram minha vida. Entendo a situação e a conclusão a qual tais pessoas chegaram, racionalmente era o que devia ser feito, uma vez que estávamos de mudança e necessitávamos de espaço para acomodar nossas coisas.
Minha intenção na verdade era guardar esses objetos, pois eles representam o resgate de minhas vivências, são memórias sensíveis que magicamente faziam brotar aqueles momentos que vivi, nos quais vestia aquela bermuda ou aquela camisa ou aquela bota, lia ou escrevia aqueles papéis! Para isso bastava vê-las, tocá-las e voltar no tempo e me ver beijando Elidi pela primeira vez, me ver caindo no esgoto do canal da Barra com M., os sentimentos que tinha aos dezenove anos quando escrevi aquelas frases, quando fui à casa de Danilo pela primeira vez, quando Gil e eu falamos do Mundo Desabitado pela primeira vez e por ai vai.
Consegui preservar algumas coisas realmente muito importantes pra mim, como por exemplo, minha camisa do Iron Maiden que comprei em 1994 quando tinha catorze anos e a minha bermuda azul que eu adoro e com a qual fui à praia com a galera da faculdade e tinha que amarrá-la com um arame de varal na minha cintura porque não tinha um cinto. Não pude ser o Shindler de outras coisas como gostaria e minha bermuda preta com uma manchinha branca na perna direita foi pro lixo. Ao menos alguma coisa ficou.
Além das minhas queridas roupas tive que me livrar de vários outros pertences como os cadernos que trouxe de Minas onde arriscava escrever alguns poemas, uma série de panfletos recolhidos na saída de shows ou cinemas e que me remetiam àquele momento em que curtia o show ou assistia ao filme sempre que os tinha sobre meu olhar. O argumento principal usado como motivo para que me desfizesse de tais objetos foi que eram velharia e não tinham mais nenhuma utilidade: os cadernos já estavam escritos, os shows já tinham acontecido, os livros já haviam sido lidos, as roupas já haviam sido vestidas demais, etc. Se é assim qual o sentido de preservar essas coisas? Se pensarmos utilitariamente não há motivo algum. Porém se pensarmos em termos afetivos os motivos são muitos. Quando estiveram envolvidos em momentos marcantes da minha vida tais objetos passaram a ser mais que simples objetos, mas emoções, sentimentos, como disse, lembranças sensíveis, verdadeiros amigos, que enquanto estivessem preservados haveria sempre a possibilidade de ativarem minha memória e me permitir desfrutar daqueles momentos vividos. Ao descartá-las talvez tenha perdido para sempre as lembranças que esses objetos tão queridos guardavam consigo.