
quinta-feira, 22 de julho de 2010
Paisagens de uma mente conturbada

domingo, 18 de julho de 2010
Sabedoria Popular e a Secretaria de Cultura de Ponte Nova

I FESTPON – FESTIVAL DE TEATRO DE PONTE NOVA
No dia 06/02/2010 aconteceu, na sede da CIA TEATRO DE BOLSO a primeira reunião para a realização do I FESTPON – FESTIVAL DE TEATRO DE PONTE NOVA. O projeto idealizado por Emerson de Paula (responsável pelo grupo NAED) foi aprovado pela Lei Estadual de Incentivo a Cultura do Governo de Minas Gerais e tem como objetivo divulgar os grupos teatrais da cidade e incentivar o desenvolvimento das artes cênicas no município e na região. Além de apresentações teatrais gratuitas ao público, os pontenovenses poderão participar das oficinas artísticas e palestras culturais que farão parte da programação. Grupos mineiros também farão parte do Festival como forma de promover o intercâmbio cultural.
O ponto alto desta reunião foi a união dos 4 grupos de teatro de Ponte Nova: NAED – NÚCLEO ARTÍSTICO EDUCACIONAL, CIA TEATRO DE BOLSO, O CURSO LIVRE DE TEATRO DO CSDH E GRUPO TEATRAL VIVER COM ARTE que serão os organizadores do evento.
O I FESTPON acontecerá em agosto e terá uma programação teatral intensa com apresentações em praças públicas e em espaços fechados. O projeto agora está em fase de captação de recursos e parcerias.
Mais informações no site www.culturapontenova.com.br
Segue em anexo o registro fotográfico da reunião feito pelo fotógrafo Marcelo Carvalho.
quinta-feira, 1 de julho de 2010



Dunga enfrenta monopólio e prepotência da Rede Globo: na sexta-feira, "Dia sem Globo"
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quinta-feira, 17 de junho de 2010
1º ENCONTRO DE ARTE-EDUCAÇÃO DE OURO PRETO
segunda-feira, 7 de junho de 2010
domingo, 6 de junho de 2010
Carta pro meu Vô.

O senhor já se perguntou o que significa viver? Eu me coloco essa questão sempre; não porque faltem respostas; respostas encontramos em cada esquina. A grande questão não é essa, mas porque sinto a necessidade de coloca-la a mim mesmo. “Pensar é estar doente dos olhos.”, a síntese do velho Caiero me atormenta! Estou doente vô, porque não consigo deixar de pensar no que significa viver. O que cativa no senhor, é justamente o vigor que vejo em sua alma. Sentir o senhor me traz a paz do silêncio, pois sinto a presença de uma vida serena, que não precisa de pensamentos e explicações, mas que está imersa no próprio viver. Ainda consigo ver o cinza daqueles domingos que não pude ir à roça! E jamais deixei de sentir a sensação daqueles dias de terra, verde e intensa atividade que a roça me deu! Era um tempo em que viver era o bastante para se estar feliz! Não me preocupar com os dias era tê-los; era passar por eles tão leve quanto a brisa das manhas de inverno! Ah! Vô, o senhor sabe do que falo né! O senhor é a própria brisa, que o intenso vento dos anos sopra cada vê mais alto. Não tenho respostas vô, na verdade, inconscientemente acho que nem as quero. Tenho algo melhor que respostas, o senhor, a própria vivência que possui mais força que qualquer resposta! Ainda serei brisa vô, pode crer!
sábado, 5 de junho de 2010
Pat Metheney - Orchestrion
Acontece que o guitarrista toca acompanhado por nada menos do que uma banda de robôs, por assim dizer. Um aparato tecnológico desenvolvido em parceria com a Electronic Musical Urban Robots registra as notas que Matheny toca, assim como a intensidade e duração de cada uma delas. A partir daí, os dados são distribuídos para instrumentos como baixo, piano, percussão e bateria, que fazem suas partes sozinhos. Veja o vídeo abaixo para entender melhor!
De nada adiantaria, contudo, criar um projeto tão audacioso se a qualidade musical não fosse boa. Quanto a isso o ouvinte pode ficar tranquilo, pois raramente Pat Metheny decepciona. O repertório traz cinco longas faixas de um jazz calmo, intimista e cheio de climas. Embora o grande destaque seja a forma de como o disco foi feito e não as músicas em si, não dá para reclamar das belíssimas melodias e passagens que encontramos ao longo da faixa-título, em “Soul Search” e “Spirit of the Air”, por exemplo.
Como estava experimentando seu novo brinquedinho, Pat Metheny não se arriscou muito em “Orchestrion”, permanecendo em sua zona de conforto e sem exigir muito de seus novos “companheiros”. Se ele levar a idéia adiante, porém, não haverá limites para o guitarrista.
Relato de uma morte que vive

Hoje caminha. Assim como ontem, assim como amanhã. Dias úmidos ou quentes, ruas claras ou escuras, não importa; seus olhos olham, mas não vêem. Respira o ar, mas não o sente; beija os lábios da mulher e sua pulsação continua estável. Os traços de seu rosto são os mesmos sempre. Não sabe se teve dias ou se está preso ao mesmo dia, que se repete eternamente.
Em sua direção, na direção oposta, do lado esquerdo, do lado direito, sobre sua cabeça, abaixo de seus pés: corpos. Corpos de carne, corpos de metal, corpos de vidro, corpos de terra, corpos de aço, corpos de madeira. Até corpos sem corpos.
Suor saindo de seus poros escorrega pela superfície do seu rosto. Caem ao chão ou sobre os braços da mulher. Existem flores e nas flores existe o amarelo, o verde, o vermelho, o azul e o preto. Ainda existe vida deste lado! Entretanto, seus olhos não piscam, estão presos a imagens fixas, sentimentos diamantes, que imploram pelo cinza de todas as cinzas. A isso chama vida.
Acredita viver. Diante de seus olhos o fardo, o peso, a medida, uma tonelada. Acredita em ganhar e perder, morrer e viver, cagar e mijar, ser bom ou mal (acho que até mesmo acredita em ser bom e mal). Ainda não conseguiu chorar, só consegue rir. Concebe as coisas dentro de uma escala evolutiva: do mal ao bom, do errado ao certo, do triste ao feliz, do doentio ao saudável, da escravidão à liberdade, do amor ao ódio. Outras vezes as concebe dentro de uma escala hierárquica: primeiro o bom e depois o mal, primeiro o certo e depois o errado, primeiro a felicidade e depois a tristeza, primeiro a saúde e depois a doença, primeiro a liberdade e depois a escravidão, primeiro o amor e depois o ódio. Por enquanto não odiou, não amou, não sofreu, não escolheu, não desejou.
Certa vez contaram-lhe que a chama é quente e queima a ponta dos dedos. Disseram-lhe que há flores nos jardins e que nelas podemos aspirar fragrâncias diversas. Até hoje não colocou a mão na chama, muito menos se abaixou para respirar o perfume dos jardins.
Nunca o julgaram louco. Na verdade, alguns o chamaram de mestre, outros de experiente; mas inconseqüente, desmedido ou aprendiz, isso nunca.
O pior é que nada disso ele sabe. Pensa estar acordado em seu sono profundo. Nada disso se quer relampejou em seu espírito. São seus olhos que contam esse sentimento ou vivemos num palácio de espelhos?
domingo, 30 de maio de 2010
Conheça Marcos Bagno

Marcos Bagno nasceu em Cataguases (MG), mas sempre viveu fora de seu estado de origem. Depois de ter vivido em Salvador, no Rio de Janeiro, em Brasília e no Recife, transferiu-se em 1994 para a capital de São Paulo, onde viveu até 2002, quando se tornou professor do Instituto de Letras da Universidade de Brasília (UnB),
tendo atuado no Departamento de Linguística, Português e Línguas Clássicas até 2009, ano em que se transferiu para o Departamento de Línguas Estrangeiras e Tradução.
Como escritor, Bagno iniciou sua carreira em 1988 ao receber o IV Prêmio Bienal Nestlé de Literatura pelo livro de contos A Invenção das Horas, publicado pela Editora Scipione.
Vieram em seguida outros livros, a maioria deles dedicados ao público infanto-juvenil. Sua produção literária soma no momento quase 30 títulos. Outros prêmios importantes: "João de Barro" (literatura infantil, 1988), "Cidade do Recife" (poesia, 1988), "Cidade de Belo Horizonte" (contos, 1988), "Estado do Paraná" (contos, 1989) e "Carlos Drummond de Andrade" (poesia, 1989). Alguns de seus livros receberam da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil a classificação de "Altamente Recomendável". Desde 1997, tem se dedicado à produção de obras voltadas para a educação, como Pesquisa na escola: o que é, como se faz (Ed. Loyola), Machado de Assis para principiantes (Ed. Ática), O processo de independência do Brasil (Ed. Ática). Suas obras no campo da linguística se concentram principalmente nas questões relativas à crítica do ensino da língua portuguesa nos moldes tradicionais, baseados exclusivamente nas noções pouco consistentes da gramática normativa e impregnados de preconceitos sociais. Seu primeiro trabalho nessa linha foi A língua de Eulália (novela sociolinguística), publicado pela Ed. Contexto em 1997 e desde então constantemente reeditado.
Paralelamente, Bagno vem trabalhando como tradutor para algumas das principais editoras do país, e já traduziu mais de 50 livros do inglês, do francês, do espanhol e do italiano. Como intérprete simultâneo de conferências, soma mais de 1.000 horas de cabine em eventos nacionais e internacionais.
No campo da investigação científica e acadêmica, Bagno sempre se interessou pelo que diz respeito à linguagem humana em todas as suas manifestações. Se graduou em Letras pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), onde também obteve o título de Mestre em Linguística com uma investigação sociolinguística sobre o tratamento da variação nos livros didáticos de português. Obteve o título de Doutor em Língua Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) com uma tese sobre as discrepâncias entre a língua realmente utilizada pelos brasileiros e a norma-padrão conservadora, veiculada pelas gramáticas tradicionais, pelos livros didáticos e pela mídia, que se baseiam em doutrinas ultrapassadas e não refletem a realidade da língua viva. A tese, orientada pelo Prof. Ataliba de Castilho e co-orientada pela Profa. Marta Scherre, foi publicada em agosto de 2000 pela Ed. Loyola com o título Dramática da língua portuguesa (atualmente em 3a. edição).
A militância de Bagno contra toda forma de exclusão social pela linguagem se tornou mais conhecida depois da publicação do livro Preconceito linguístico: o que é, como se faz (Ed. Loyola) que, desde seu lançamento, em 1999, vem sendo reeditado de modo ininterrupto e constante, com uma edição nova a cada mês. Já perto de atingir sua 50ª edição, o livro é amplamente utilizado nos cursos de Letras e Pedagogia de todo o Brasil.
Graças a esta militância em favor do reconhecimento da riqueza e do valor das múltiplas variedades linguísticas que compõem o universo da língua portuguesa do Brasil, Bagno vem sendo convidado a ministrar cursos, palestras e conferências nas mais diversas regiões do país. Em 2004, foi coordenador-adjunto da avaliação dos livros didáticos de português para o ensino médio (PNLEM), processo executado pelo Ministério da Educação. No mesmo ano, a convite do Ministério das Relações Exteriores, esteve na Argentina, no Paraguai e no Uruguai para discutir questões relativas ao ensino do português brasileiro para estrangeiros. Atuou em mais dois processos de avaliação de material didático para o Ministério da Educação: o PNLD-Dicionários (2005) e o PNLD-2008 (5ª a 8ª séries). A convite da Universidade de Santiago de Compostela (Espanha), ministrou curso sobre a realidade sociolinguística brasileira no verão europeu de 2005.
Em 2001, publicou o livro Português ou brasileiro? Um convite à pesquisa (Parábola Editorial), que propõe uma metodologia para a introdução da prática da pesquisa em sala de aula como ferramenta pedagógica para substituir a prática tradicional das "aulas de gramática". Organizou os volumes Norma linguística (2001) e Linguística da norma (2002) (ambos pelas Ed. Loyola) e Língua materna: letramento, variação & ensino (Parábola, 2002). Traduziu História concisa da linguística de Barbara Weedwood (Parábola, 2002) e Para entender a linguística de Robert Martin (Parábola, 2003). Retomando seu trabalho de ficcionista, Bagno escreveu O espelho dos nomes (Ática, 2002), uma aventura pelo reino fascinante da linguagem, dedicada ao público infantil e juvenil. Em 2005, publicou mais três livros dedicados ao público infanto-juvenil: Murucututu: a coruja grande da noite (Ática), Uma vida de conto de fadas: a história de Hans Christian Andersen (Ática) e A Lenda do Muri-Keko (Ed. SM).
Em 2003 publicou o livro A norma oculta: língua & poder na sociedade brasileira (Parábola Editorial), em que retoma a discussão sobre o preconceito linguístico a partir da reação da imprensa brasileira à eleição de Luiz Inácio Lula da Silva à presidência da República. Discute os problemas que envolvem a expressão "norma culta" e propõe novos termos e conceitos para uma análise mais precisa da realidade sociolinguística do Brasil. Examina as relações entre língua e poder na sociedade brasileira, numa perspectiva histórica, desde o período colonial até os dias de hoje.
No início de 2007 a Parábola Editorial lançou Nada na língua é por acaso: por uma pedagogia da variação linguística. Neste novo livro, Bagno analisa os problemas existentes nas abordagens que livros didáticos e materiais de formação docente vêm dando à variação linguística, problemas decorrentes da falta de bons fundamentos teóricos para o tratamento do tema. O livro traz os principais conceitos da sociolinguística, propõe um roteiro para a análise crítica dos materiais didáticos, oferece atividades práticas para o tratamento da variação e da mudança em sala de aula e, por fim, leva o leitor a refletir sobre os conceitos abordados por meio de exercícios.
sábado, 20 de março de 2010
Em defesa de Kill Bill (parte 2): O PULP AINDA POLPA...
Fiquem com a contribuiçao do Coringa, tirem suas próprias conclusões e participem desta discussão.
Recomendamos aos nossos leitores que acessem o blog O Coringa e conheçam as posições desta figura misteriosa sobre o mundo do cinema e da arte. O link é: http://cartasdocoringa.blogspot.com
Contribuição do Coringa ao amigo mineiro…
Uai sô, sério?
(Why so serious?)[1]
Este texto chega com um pouco de atraso, e compõe a segunda parte da defesa de Kill Bill. Foi-me solicitado já há algum tempo e há quase um ano estou enrolando para escrevê-lo.
O texto aqui presente é oriundo de conversas e discussões entre amigos, nas quais as opiniões por mim expressas em muitos casos iam ao encontro e se completavam com as opiniões expressas pelo autor desse blog. Em muitas das coisas ditas por ele durante nossas conversas, via como se as minhas próprias idéias me estivessem sendo reveladas, e não me admiraria se ele dissesse o mesmo em relação às minhas opiniões. Ao finalizar o texto percebi que ambos expressam, de maneira diferente, opiniões muito próximas. O fato é que, assim como Inácio (como ele é conhecido na Bahia) não considero que Kill Bill possa ser reduzido aos filmes pré-fabricados de Hollywood. Como se sabe, Tarantino é um aficcionado pela literatura pulp, chegando inclusive a lhe dedicar um filme (Pulp Fiction). Este tipo de literatura possui algumas características próprias e influenciou muita coisa na cultura americana, diria, inclusive, que constitui a raiz de uma espécie de mitologia pop americana. O pulp é uma espécie de literatura de cordel americana, ou seja, são histórias contadas em linguagem acessível e impressas da maneira mais barata possível. Tanto o pulp quanto o cordel adquiriram suas nomenclaturas a partir de características de confecção. O cordel adquiriu este nome por conta das páginas impressas serem colocadas para secarem em cordas estendidas, e o pulp por conta das páginas utilizadas serem confeccionadas da polpa (pulp) das árvores. Basicamente a literatura pulp consistia em contar histórias curtas com muita ação e mistério, criando personagens com capacidades fora do comum, e cuja origem em muitos casos era rodeada de segredos. Sempre que possível o desenrolar da história deveria ser resolvido no episódio seguinte, levando o leitor a adquirir a próxima edição. O público alvo desse tipo de literatura eram trabalhadores com baixa renda, os quais, evidentemente, não poderiam pagar muito por um exemplar e também não possuíam muito tempo ocioso para a leitura. Isso faz com que as características básicas da literatura pulp sejam a confecção barata, o diálogo rápido e sem se perder muito em divagações, a linguagem fácil e acessível ao grande público, a presença de pessoas com capacidades extraordinárias, e em alguns casos as histórias seqüenciadas. Percebemos o desenrolar da cultura pulp nos romances policiais, nas HQs (que mais tarde influenciaram significativamente a Pop Art), nos super-heróis, no filme de ação e no bang-bang. Isso lembra alguma coisa? Lembra Kill Bill.
(i)
O primeiro ponto a respeito do qual gostaria de comentar refere-se à presença constante de referências constantes às grandes marcas comerciais no filme de Tarantino, tais como o tênis Puma, a espada Hatori Hanzo, ou as motos de não sei que espécie, e outras referências que constantemente aparecem em seus filmes. Aqui Tarantino se utiliza de uma técnica cara à Pop Art, qual seja, a utilização de ícones do mass-media como matéria prima a ser transformada em linguagem artística. Um bom exemplo disso são duas obras de Caetano Veloso, Superbacana e Alegria, alegria, ambas com ampla referência a ícones do mass-media e, apesar disso, poéticas. Caetano conhecia e era um adorador do trabalho de Andy Warhol (pai da Pop Art), de modo que não foi casual a utilização dessa técnica em sua obra. Assim como a literatura pulp, a Pop Art pretendia atingir as massas com uma linguagem acessível. A questão é análoga à da literatura policial e da literatura de cordel no Brasil. As histórias deveriam ser construídas utilizando-se de uma linguagem acessível. A sacada da Pop Art foi se utilizar de ícones que estavam presentes na mídia (sejam eles comerciais ou não). Isso não constitui uma apologia ao consumo. Quando Caetano compôs Alegria, alegria e inseriu pela primeira vez a coca-cola na letra de uma canção brasileira ele não estava fazendo apologia à coca-cola. Somente um pseudo revolucionário cego (e burro) poderia enxergar nessa alusão uma apologia ao consumo. Trata-se somente de utilizar uma referência conhecida de todos. A coca-cola, aí, é ressiginificada e aparece como uma alusão à falta de preocupação e à descontração (“eu tomo uma coca-cola / ela pensa em casamento”). O que Tarantino faz não é muito diferente disso. Tarantino se utiliza de grandes marcas precisamente porque essas são conhecidas do grande público, e a universalidade sempre foi uma das características da arte. Os artistas que se prezam pretendem compartilhar um sentimento através de sua obra e não apenas satisfazer o próprio ego ou o ego de seu papai que queria ter um filho artista. Daí porque não somente Tarantino, mas todos os artistas oriundos da Pop Art (que não é equivalente de arte comercial ou de arte pré-fabricada), se utilizam de ícones do mass-media em suas obras, ícones que justamente por serem conhecidos do grande público tornam a obra mais acessível. Os ícones do mass-media, aqui, são a matéria prima a ser transformada em linguagem artística. Tal qual a coca-cola na música de Caetano, esses ícones expressam outra coisa além de si mesmo, e penso que não é diferente com Tarantino. É claro que a novela da Globo, o filme da Globo – e o de Hollywood também – fazem constantes referências a marcas comerciais, com a única diferença de que a referência é feita de maneira completamente descarada e sem nenhum nexo com o restante da obra, e além disso não é atribuído um novo significado à marca. Por essas razões considero que não dá pra chamar a obra de Tarantino de comercial e pré-fabricada. Utilizar-se de referências comerciais como matéria para a linguagem artística não é o mesmo que fazer um filme comercial e inartístico. Há uma diferença sutil e determinante quando falamos de uma marca conhecida para através dela dizermos outra coisa (como na música de Caetano) e quando utilizamos dela para fazer propaganda (como uma citação forçada das marcas nas novelas da Globo). No primeiro caso novos significados são criados, no segundo não ocorre senão a redundância daquilo que seria desnecessário dizer.
(ii)
O outro ponto que gostaria de abordar é com relação aos filmes orientais classe B, aos quais Tarantino remete em Kill Bill. O diretor se utiliza em grande parte dos fiascos deste cinema, como o sangue esguichando do pescoço decepado, o sorriso do mestre não sei o quê, a luta de uma única pessoa contra um exército, a utilização explícita do cenário de papelão ao fundo, a interpretação forçada, etc. etc. etc. O mérito de Tarantino é estilizar os erros do cinema classe B. Explico: estes diretores procuravam reproduzir Hollywood e não conseguiam, e suas falhas não eram obtidas intencionalmente, mas por incompetência ou falta de recursos mesmo; ao contrário, Tarantino parte destas falhas por princípio.
Tarantino coloca em evidência precisamente os pontos em que o cinema classe B foge à Hollywood, isto é, os seus erros. Dito de outra maneira, Tarantino ressalta precisamente a incapacidade do cinema oriental reproduzir Hollywood, e nisto revela a potência crítica contida neste. Tal qual uma alma nobre não consegue reproduzir os hábitos de uma alma vil sem se tornar ridícula, assim também o cinema oriental não consegue reproduzir os “efeitos especiais” do cinema Hollywoodiano. Mas o principal fato em questão é que a aparência tosca e mal acabada é característica própria do gênero pulp. Não é de se estranhar se um diretor de cinema aficcionado por literatura pulp estilizasse a parte “tosca” do cinema B oriental. O exagero também é uma das características mais marcantes da literatura pulp e dos quadrinhos, cujos heróis são seres com capacidades fora do comum (alguma semelhança com os heróis do bang bang?). Aliás, o exagerado e o hiperbólico é comum à toda arte vigorosa, principalmente quando esta se encontra mais crua e em seus primórdios. Quando digo “hiperbólico” estou me referindo à ampliação de determinados caracteres da realidade em um todo harmônico, e não ao melodramático ou ao megalomaníaco simplesmente. Vejam-se as grandes epopéias, tragédias e comédias, todas elas se valem de um sentido hiperbólico de determinados caracteres da realidade. Veja-se a ênfase de Homero colocada sobre os atos mais triviais de seus heróis, cada atar de sandálias de Telêmaco é enunciado como se fosse colocado um zoom sobre os pés do personagem, gerando a sensação de grandiosidade do mesmo. Evidentemente, Tarantino não é Homero, mas a questão é análoga. A vingança da noiva em Kill Bill não é senão uma explosão da violência vista sobre a ótica desse hiperbolismo, somente que a ênfase é dada sobre o sentimento da violência e não sobre o personagem. A luta contra os Oitenta Loucos não é senão um dos aspectos desse hiperbolismo. Tarantino capta algo que está presente de forma germinal e mal-acabada nos filmes B e lhes confere uma forma própria, precisamente porque se desliga da maneira pseudo-realista com a qual os filmes de Hollywood pretendem garantir a sua veracidade. A veracidade da arte é obtida mediante a unicidade e a harmonia da composição, e não por verossimilhança com a realidade. Os “efeitos especiais” de Hollywood não são senão a prova desse pseudo-realismo e o atestado de incompetência hollywoodiano em lidar com a hipérbole e a metáfora, tais efeitos estão para o cinema assim como o deus ex machine estava para o teatro grego: uma inovação técnica que muitas vezes esconde uma incapacidade poética. Em alguns casos, o cinema classe B oriental sabe lidar com esse hiperbolismo melhor que Hollywood. O problema com esse tipo de cinema é justamente tentar ser uma cópia de Hollywood sem possuir os mesmos recursos financeiros e, principalmente, negligenciando a sua potência própria e sua idiossincrasia em relação à Hollywood. Idiossincrasia esta que foi percebida por Tarantino, o qual lhe conferiu um modo de expressão adequado. Daí porque Kill Bill possui uma plasticidade e uma potência imagética que não reproduz as cenas típicas de Hollywood, mas que também não ocorre nos filmes classe B.
Se por um lado Kill Bill não pode ser igualado aos filmes de Hollywood, por outro lado, também não pode ser igualado aos filmes classe B. A diferença entre o cinema B e Tarantino, se dá porque no primeiro estes erros são falhas em relação à Hollywood, e no segundo porque estes erros são obtidos intencionalmente. Daí poder apontar uma diferença, em princípio, entre eles. Em Kill Bill, é como se o cinema classe B tomasse consciência de sua própria capacidade e de sua irredutibilidade em relação à Hollywood. Por quê as cenas de Kill Bill nos agradam? Não seria porque elas estão estilizadas? Ou porquê o autor utilizou os erros do cinema B como princípio, e por isso pôde estiliza-las? Não seria este o fato que nos faz admirar Kill Bill, e não admirar as obras que Kill Bill supostamente imita? E não se dirá que Tarantino está reproduzindo Hollywood, precisamente porque sua obra estiliza aquilo que não se encaixa na regra hollywoodiana, porque esta obra busca pela incapacidade de recriar os efeitos especiais de Hollywood. Algumas cenas extremamente clichês às quais torceríamos o nariz constituem precisamente um dos méritos de Kill Bill. E, diga-se de passagem, o mérito do filme de Tarantino justamente não é o “efeito especial”. Como já foi dito no primeiro texto, o diretor conseguiu com grande mérito entrelaçar coisas distintas como a estética pop, as histórias de samurai e máfia japonesa, os HQs e seus heróis e o bang bang. Tudo isso num roteiro coeso e com cenas, diálogos, músicas e fotografia harmônicas. Fazer coabitar coisas tão distintas como estas num todo harmônico, por si só, já basta para elogiar Kill Bill. Como ele pôde conseguir isso? Utilizando justamente a literatura pulp, a qual, como já foi dito, constitui um ponto de encontro entre todas essas vertentes. O filme não é um mero recorte de outros filmes à la “Todo mundo em pânico” precisamente por conta da unidade, coesão e harmonia nele encontradas, o que não ocorre em “Todo mundo em pânico”, e nem mesmo na maioria das obras de Hollywood, cuja fraqueza das cenas e excesso de elementos superficiais à trama é gritante. O estilo de Tarantino é pulp-fiction: a literatura violenta, com diálogos curtos, rápidos, de inteligência sagaz, com poucos elementos e, sobretudo, com uma trama bem amarrada; heróis com suas lendas e histórias acerca de seu nascimento, com suas presenças misteriosas também são elementos de influência marcadamente pulp. Até mesmo a remissão da solução do enredo para um segundo volume é algo comum na literatura pulp. O que Tarantino faz é vestir o cinema B com roupas adequadas, o que até então não havia sido feito por conta da tendência em reproduzir Hollywood. Tarantino traz à tona a literatura pulp em seu caráter mais cru, sem divagações teóricas, e conferindo vida aos clichês e lugares comuns da literatura pulp. Algo bastante diferente do cinema monótono, requentado, a-poético, confeitado, pseudo-realista e enfeitado de Hollywood, um cinema cujo uso de “efeitos especiais” e incapacidade de se desvencilhar do realismo revela a sua incapacidade em se afirmar enquanto arte.
Abraços desse anti-herói dos quadrinhos, aqui travestido em comentador de arte: o Coringa
[1] Trocadilho extraído da Desciclopédia.



